Estamos cada vez mais ecléticos e menos fiéis
por Rafael Bittencourt
Há bem pouco tempo me entreguei às maravilhas da literatura digital e suas armadilhas de um clique. Uma das minhas primeiras compras foi o livro Alta Fidelidade de Nick Hornby, pelo simples fato de que eu precisava de alguma leitura que me levasse à Londres dos anos 90 para fingir sentir um pouco o frio que o Rio não faz.

Entre as páginas na tela do meu celular, voltei à antiquada e charmosa realidade do papel de jornal numa manhã pós-aniversário, dessas bem cretinas, que foi salva pela coluna da Cora Rónai falando sobre House of Cards e a grande repercussão na mídia americana - não só pelo tema político, mas pelo fato de a série ser divulgada em um bloco de temporada completo e não no massacrante episódio a episódio, como eles estão acostumados.
Alta Fidelidade trata basicamente de uma época em que se compra LP’s e gravar uma cassete era quase uma prova de amor ou amizade, tamanho o trabalho do mimo. Para tanto, era necessário um exímio conhecimento dos álbuns, tempo da faixa e se as guitarras distorcidas do Sonic Youth combinariam de fato com os vocais melosos do Brian Adams. Antes os álbuns eram vividos intensamente, as pessoas tinham fases que ouviam um artista ou estilo musical específico, pois não existia o shuffle das ecléticas playlists nos celulares e muito menos Grooveshark.

A exaurida história da modernidade líquida cabe muito bem na explicação deste fenômeno, fomentado pela (maravilhosa, adequada e necessária) facilidade tecnológica. O termo Alta Fidelidade não remete à fidelidade aos artistas e sim à qualidade das músicas (hi-fi), infelizmente. Senão somos fieis aos músicos que adoramos, como o personagem de Alta Fidelidade o é, imagina o que virou nossa relação com a TV… Eu, particularmente, estou prestes a cancelar minha TV a cabo, pelo simples fato de que só assisto a um canal e muito esporadicamente. O resto das coisas que assisto e acompanho são, em sua maioria, no modelo de TV que a Netflix apostou com o House Of Cards.

Não tenho tempo para esperar uma série sair na semana que vem. A vida contemporânea já me causa ansiedade demais, e o fato de saber que tenho mais três temporadas de uma série para assistir me enlouquece, mas ao mesmo tempo me acalma, pois sei que a série não será cancelada e tenho a segurança de garantir mais algumas noites de diversão - que não com a prostituição global na Turquia.
Nessa mesma semana o CEO da Abercrombie & Fitch teve a infelicidade de apostar num modelo de sociedade absolutamente falido (da segmentação das tribos urbanas), ignorando a realidade de todo um mundo que não vive numa high school americana nos mesmos anos 90 do livro de Nick Hornby. Trabalho com Branding e posso dizer que identidade de marca não significa dizer que seu público é muito sarado, rico e frequenta as praias do Pacífico, e que o resto do mundo procure sua mesa no refeitório. O resultado foram divertidos blogs, tumblrs e maravilhosas doações com as roupas da marca, que serviram para alguma coisa de fato, que não serem letreiros ambulantes duvidáveis.

Voltando à fidelidade… Se segundo o próprio Bauman não somos assim tão fiéis à música, às relações pessoais (assunto que prefiro deixar para a nossa NaCafeteria) ou às nossas próprias crenças, quem dirá à uma marca ou produto que ofende 95% da população…
Não apoio 100% essa “baixa fidelidade”, mas nestes tempos de protestos, faz bem não levar desaforo para casa.
Estilo com toque de cultura e personalidade
por Raphael Debei
A sexta-feira chegou e com ela a última TrendyMen. Depois de quase um ano mostramos o estilo de homens que nos chamam a atenção, nos enchem os olhos e trazem ótimas referências para bons looks, essa última coluna marca apenas o começo de uma nova participação minha no Trend Coffee, que virá logo em breve! Sendo assim, vamos a última (mas não menos importante!) TrendyMen?

A construção de um estilo envolve muitas coisas: gosto pessoal, vivência e cultura a qual você pertence, principalmente se ela já carregar uma estética interessante. Nosso escolhido de hoje é um indiano radicado em Nova Iorque e a mistura de cultura indiana com estilo de metrópole fez muito bem.
Waris Ahluwalia é designer de joias, ator e dono de uma casa de chás. Seu estilo mistura toques indianos como estampas, cores características do país e pashminas à alfaiataria com pitadas pessoais como sandálias no lugar dos sapatos em looks formais e modelagem mais ampla das calças quando passamos por uma era de skinny (sim, ainda passamos).

O turbante transcende a questão do acessório e a barba, febre atual, já é habitué no rosto de Waris aliados a tudo o restante resultam em estilo com identidade e toques culturais. Dê uma olhada nos looks de Walis e inspire-se!
Em tempo, agradeço a todos que dedicaram o seu tempo lendo a coluna durante esses meses e espero que vocês estejam comigo e com o Trend Coffee nos nossos próximos passos. O meu sincero obrigado a todos!
Fragmentos de um vida transformam novo filme de Leos Carax em cult aclamado pela crítica
por Matheus Trucolo Conci
É difícil aceitar o que sai dos nossos padrões. Traçamos um plano, imaginamos um roteiro, tudo com começo, meio e fim. E daí vem a vida e coloca vários empecilhos, desafios, pedras ou como você gostar de chamar aquilo que não previu. Da mesma maneira, criamos essa expectativa com a arte. Se ela realmente é a expressão da vida, podemos nos frustrar quando ela sai dos padrões esperados. Porém, o incômodo causado é parte daquilo que a gente também espera que aconteça, já que corremos atrás de transformações e de que a vida nos surpreenda.

Não, esse não é um texto filosófico. Mas é sobre o controverso e polêmico Holy Motors, lançado em 2012 e que configura entre os melhores títulos lançados na preferência da crítica especializada. Fugindo dos padrões convencionais do cinema mundial, o filme é um fragmento de nove histórias que não tem ligação nenhuma entre si, apenas pelo fato de serem interpretadas pelo mesmo personagem, enquanto este atravessa Paris dentro de sua limusine conduzida pela sua chofer pessoal.

Holy Motors é ousado do início ao fim. Quebra paradigmas de construção de roteiro ao não interligar nenhuma das histórias contadas, que nada mais são do que alegorias de histórias que o diretor Leos Carax um dia tentou transformar em obras separadas e não conseguiu por falta de verba ou de inspiração. É uma crítica ao cinema como o próprio cinema nunca viu, pois se subentende que seu personagem faz parte de uma grande corporação, contratado para atuar em diferentes papéis dentro de uma única vida. Algo confuso de expressar em palavras, assim como aquilo que sentimos quando o filme termina.

Algumas histórias merecem destaque. Eva Mendes participa de um dos fragmentos mais viscerais, atuando como uma modelo em um mundo pautado pela necessidade humana de ser alguém, sob a perspectiva da ditadura da beleza. A sua fuga com o louco pauta uma cena de grande representação na obra; sem expressão ou reação, a personagem de Eva se deixa levar pelo mendigo, enquanto é seguida pelos cliques do fotografo que vê na situação uma grande obra.

Já outra grande história é protagonizada pela cantora Kylie Minogue, que faz uma mulher sensível e apaixonada pelo personagem principal, reencontrando-o após alguns anos. Ali fica claro o papel de ambos em um mundo tomado por personagens, atuando isoladamente em diversos momentos da vida, se escondendo dentro de suas limusines, para serem encontrados por outros desconhecidos.
Holy Motors chamou a atenção da imprensa por ser diferente. Não há dúvida que o filme não é uma obra que levará massas para as salas de cinema, mas pode ser que tenhamos vivenciado o nascimento de um novo cult do nosso tempo. Sua passagem pela sétima arte não pode ser despercebida, e há muito que escrever sobre ele e o seu papel dentro e fora da vida real. Que a genialidade de obras assim continue nos causando certo incomodo, e que consigamos perceber que ele é o responsável por nos ajudar a evoluir e rever aquilo que já estamos acostumados a esperar. Que o cinema continue a nos surpreender.

Nota do editor: Perdeu Holy Motors nos cinemas, no fim do ano passado? O longa foi lançado em DVD esse mês! Aproveite e não espere para ver!
Conheça as inovações sustentáveis das indústrias dos irmãos Dassler: Puma e Adidas
por André Chiarati
Uma revolução silenciosa acontece dentro na Baviera alemã. Os cerca de 24 mil habitantes da pequena cidade de Herzogenaurach já estão acostumados com as inovações dos irmãos Dassler, Rudolf e Adolf, criadores das marcas Puma e Adidas, respectivamente. O que talvez nem todos saibam é que ambas as marcas andam botando a cabeça para funcionar para descobrir como diminuir seus impactos, ganhar mais dinheiro e ser boa com o meio ambiente.
Em conjunto com a Fuse Project, a empresa de Rudolf estudou desde materiais até meios de produção. Depois de mais de 2 mil ideias e 21 meses de estudos, duas soluções foram responsáveis por economizar milhões em dinheiro e em benefícios ao meio ambiente. A clever little bag, algo como caixa inteligente, é feita com menos papelão, mais maleável, de fácil transporte e 100% reciclável. Ao trocar as tradicionais caixas vermelhas por estas, a Puma reduzirá em 65% o uso de papelão salvando cerca de 8.500 toneladas de papel, 20 milhões de megajoules de eletricidade, 1 milhão de litros d’água, 1 milhão de litros de óleo combustível e 500 mil litros de diesel e, de quebra, reduzindo a emissão de CO2 em 10 mil toneladas. Sem desperdício, afinal ela foi pensada e projetada de maneira otimizada, tanto em sua fabricação, quanto em seu transporte e armazenagem, quanto em sua destinação final.
A outra novidade é a clever little shopper, algo como sacola inteligente, feita de plástico de celulose de milho, 100% biodegradável - dá uma olhada como ela se desfaz (acima). No final de sua vida útil a sacola desaparece. Fora isso as etiquetas da marca são feitas com menos papel, a matriz na Alemanha utiliza energias limpas para funcionar. A Puma também tem aumentando o número de peças produzidas com algodão da África e tecidos reciclados – em roupas e calçados. Além disso, os calçados são livres de PVC, um tipo de plástico altamente poluente e tóxico – desde sua fabricação, sobre tempo de vida dos produtos feitos com ele e também quando é descartado.
Por fim, a marca traz um discurso ambicioso, onde “a revolução na redução da pegada de carbono não é mudar o [nosso] negócio, mas quem sabe um dia mudar a indústria e contribuir para um mundo melhor”. Parece que os caras acreditam no lance do “seja você a mudança que gostaria de ver”.

Já a empresa do irmão Adolf, a Adidas, em meados de 2012, anunciou no Brasil a expansão do seu programa mundial “Pegada Sustentável”. Segundo a empresa, para participar do programa e garantir o descarte adequado, basta o consumidor entregar seu calçado sem condições de uso, de qualquer marca, nas lojas Adidas. Você assina um termo de doação do calçado para reciclagem e recebe um desconto de 5% na compra de outro calçado. Uma relação de ganho x ganho. Todas as 43 lojas da marca no Brasil são postos de coleta dessa ação de logística reversa, que visa minimizar os impactos ambientais causados pelo descarte inadequado dos calçados esportivos.
A Adidas informa ainda que todos os produtos entregues para reciclagem são encaminhados para uma empresa de logística reversa e gestão ambiental parceira do projeto, que recebe os produtos, descaracteriza-os e os transporta. Os tênis então servem de combustível para alimentar fornos de cimento, substituindo o carvão, gás ou petróleo - combustíveis convencionais. Outra vantagem de tudo isso é que o coprocessamento não gera cinzas nem emissões para o meio ambiente. E assim, o ciclo se fecha.

Puma e Adidas vem se destacando quando o assunto é logística reversa e inovações sustentáveis e, a meu ver, por entender que pequenas ações quando orquestradas para um objetivo em comum, ou mais de um quando se fala em sustentabilidade, pode gerar resultados para lá de positivo, tanto em valor quanto em percepção de marca.
A história por trás de uma das mais importantes revoluções da moda masculina
por Davisson Alves em colaboração especial
Sobreviveu indas e vindas da moda, peça essencial em qualquer guarda-roupa masculino. Além de um conjunto de roupas, trata-se de um vestuário que serve de armadura, por mais que sejam odiados por uns, quem o veste sente autoridade e confiança. Possui milhões de modelos, cortes, modelagens, tecidos, cores e silhuetas variadas.

Antes do século XIX, os trajes masculinos e femininos eram diferenciados principalmente pela ornamentação. Para se ter uma ideia, na corte de Luís XV os homens faziam uso de perucas, fitas, plumas, sapatos com saltos, maquiagem, roupas com mangas e de laços pronunciados. Hoje o terno é composto de calça, paletó e colete, recebendo a adição de camisa e gravata. Já a combinação de paletó e calça é chamada costume.
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O nascimento do terno se confunde com o nascimento do homem do século XIX. Com a ascensão das classes mais baixas, devido à industrialização e às mudanças sociais surgidas a partir dali. As pessoas da classe trabalhadora, que não possuíam acesso à moda por razões econômicas, começaram a ter acesso à roupas consideradas complexas de serem feitas e também caras. Parte dessa democratização da “moda” se teve graças a melhores condições financeiras e, também, a popularização das primeiras máquinas de costura. A distinção social cultuada desde a corte de Luís XV permanece, porém agora todas fazem parte da moda.
Com o surgimento da nova burguesia, classe que pregava novos valores, como o trabalhado e seriedade de comportamento e vestimenta. O que era usado é refutado, nasce então dessa necessidade o terno. Que dentro da moda seguiu um caminho oposto: enquanto grande parte do que é usado por classes comuns, vem do desejo do humilde em se comparar com o aristocrata; o terno é a busca do aristocrata em se adequar a esse novo homem.
O terno cumpriu tão bem o seu papel que é considerado por muitos uma revolução na moda masculina. Anne Hollander afirma que
“a moda masculina deu um salto radical para a era moderna, enquanto que a feminina foi deixada para trás”.
Sabemos que a moda masculina possui ciclos mais longos, sofrendo transformações quase imperceptíveis se comparada à feminina. Alguns estudiosos afirmam que hoje a moda masculina não possui forte expressividade, devido a peça não ter sofrido grandes alterações desde a sua criação.
Contudo, em 1967 Yves Saint Laurent prova o contrário, com o lançamento do seu terno de três peças feminino. O estilista transporta a peça masculina para guarda roupa feminino fazendo com que o terno faça novamente um caminho inverso. Aumentando a interação e diminuindo a distinção na forma de se vestir de homens e mulheres.
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O terno é uma peça histórica que deve ser usada. Basta dar o seu toque.
Muita luz natural e a ‘salvação dos apertados’
por Rodrigo Antonelli
Com um estilo marcante e minimalista, o design escandinavo é referência mundial no quesito ‘morar bem com pouco espaço’. Nesse projeto o design é simples, as paredes e piso são brancos porém, como a maioria dos projetos escandinavos, a valorização da própria personalidade do morador é o que dá vida ao espaço.

Quadros, plantas, livros, velas, tapetes e todo tipo de itens pessoais não só decoram, contam a própria história do dono e deixam o lugar mais relaxante. Outro detalhe muito importante é a questão da iluminação (mas não a artificial e sim a natural). Para quem não sabe, essa luz natural dá a impressão de um espaço maior, sem falar na economia. É quase obrigação ter uma janela bem grande e/ou uma sacada onde a luz possa entrar.
Não podemos esquecer também da tão falada integração de espaços ou, como eu gosto de dizer, “salvadora dos apertados”. É o que faz a diferença quando se vive com pouco espaço.
Este projeto localiza-se em Gothenburg, Escandinávia feito pelo escritório Alvhem Makleri & Interior.