
A sensação de encarar o ‘novo’
por Alysson Souza
A banda islandesa Sigur Rós lançou no fim de maio seu sexto álbum de estúdio, Valtari. Junto com o álbum, vem o projeto ‘The Valtari Mystery Film Experiment’, um conjunto de doze vídeos. Foram contratados diferentes cineastas para este projeto, e para cada um foi cedido o mesmo orçamento modesto para criar a sua própria interpretação de uma música do Valtari. A ideia é ignorar o processo comum de aprovação artística e permitir que as pessoas disseminem sua liberdade criativa.
Um dos frutos desse projeto é o vídeo para música ‘Rembihnútur’ lançado ontem sob direção de Arni & Kinski. Assista:
Meditação, em sua etimologia, vem do latim ‘meditare’, desligar-se do mundo exterior e voltar à atenção para dentro de si. No clipe, os personagens sentem, cada um a seu modo, ‘o jeito Sigur Rós de ser’ e acordam de seu estado de concentração após ouvir a voz do Jónsi, vocalista, cantando em vonleska (esperancês, assim digamos), idioma criado pela banda sem regras gramaticais que idealiza usar a voz como um dos principais instrumentos musicais.
A banda também canta em islandês. Mas a língua ininteligivel permite a quem escutá-la sob os harmônicos entoados pelos membros da banda a sua propria interpretação de cada palavra. Fica a seu critério escrever cada verso da música de acordo com sua conclusão.
Para os diretores do clipe:
‘As mudanças começam dentro de cada um de nós. Todos nós queremos e precisamos de amor, e este clipe é uma celebração à música do Sigur Rós e o beneficio que ela nos dá. Nos últimos doze anos, meditação tem sido um modo de vida para nós’.
Parece um pensamento pretensioso, não? Pois se for, é tão pretensioso quanto verossimil. A música de Sigur Rós é carregada de mágica e inúmeros sentimentos ainda sem nomenclatura, sejam eles bons ou ruins.
Se músicas são para serem interpretadas, Sigur Rós tem uma vasta discografia em que você pode o fazer várias vezes. E não se surpreenda se a cada ouvida você tiver uma reflexão, um sentimento diferente do anterior. Cada música da banda é uma experiência única.
O baterista, Orri, em entrevista a Folha de São Paulo, em 2001, quando a banda estava prestes a fazer dois shows no Brasil para divulgar um de seus álbuns mais aclamados, ‘Agaetis Byrjun’, disse que preferiria que as pessoas ouvissem mais seus discos e publicassem menos as suas fotos. Na verdade, ‘ouvir’ Sigur Rós é apenas um detalhe. O importante é sentir.
Aos críticos que julgam que tudo já foi feito na música e no mercado fonográfico apresento-lhes ‘o novo’. Com vocês, o mistério de Sigur Rós.