![Bate-Papo Amapô: Processo Criativo
Uma conversa sobre os detalhes da coleção de Carô Gold e Pitty Taliani
por Gregory Martins
Confesso ter demorado bastante tempo para desapegar deste post. O meu olhar sobre o encontro que eu e a equipe do Tumblr tivemos com Carô Gold e Pitty Taliani, estilistas da Amapô, é quase pessoal.
O bate-papo dividido em 2 partes (Criação e Mercado de Moda Brasileiro) fala, sobretudo, a respeito de realidade no mercado de moda brasileiro. As perguntas partiram de diferentes interlocutores e, por este motivo, tomei a liberdade de sintetizar as questões e ocultar seus nomes para garantir o melhor entendimento geral. Mas, para os curiosos, todos os blogs listados aqui estavam presentes junto com a Equipe Brasil do Tumblr.
Dois dias antes da Amapô desfilar sua coleção de Verão 2013 no SPFW, visitamos o atelier da marca no Bom Retiro. As linhas abaixo são a transcrição de um dos melhores momentos dos meus anos como blogueiro.
Como surgiu o conceito da coleção?
Carô: Como tinha que ser uma coisa rápida, a gente costuma a pegar ideias que estão mais na superfície do todo o arquivo de ideias. A gente participa de um cruzeiro que é o Fashion Cruise onde a gente fez um workshop de estamparia dentro do cruzeiro. Então, cada pessoa fez um módulo da estampa. O tema era o próprio navio, o Fashion Cruise, o axé… As pessoas fizeram os desenhos. Tem mais de 30-40 desenhos e a gente juntou tudo isso e fez uma estampa. Então, acabou que a coleção veio um pouco desse universo de drinks, cruzeiro e salsa louca. A gente está trabalhando bastante com esse tipo de construção de enfeitizinho de drink, tem a estampa ‘Fashion Cruise’ que ficou incrível, outra estampa que é de drinks e estamos fazendo também looks que são os próprios drinks. Tem a estampa que a gente chama de ‘Aquarela Tropical’. Isso é meio que um hit da Amapô. A gente sempre tem uma estampa que é de pincelada. É sempre o Fábio Gurjão, que é nosso amigo, que sempre faz essas estampas para a gente.
Tem algum outro carry over nessa coleção?
Carô: No desifle não. No desfile é mais a estampa. Acho que não… Nunca tinha pensado muito bem sobre isso. No comercial, óbvio que eu tenho a pochete de franja que a gente já fez 6 vezes. A gente faz, espera vender porque é um negócio caro. Acaba de vender, a gente faz de novo, vende tudo e faz de novo… E o jeans. Mas no desifle não, porque a gente sempre tem que tentar fugir do que a gente fez da última vez.
Há clientes que procuram comprar a peça do desfile?
Carô: Raras pessoas ligam querendo, mas a gente não vende. Algumas salvas exceções a gente fala que pode fazer porque a roupa do desfile não vai caber na pessoa. Então a gente diz ‘Se você quiser muito eu posso fazer por encomenda pela bagatela de…’ E ai a pessoa desencana. Basicamente é isso. Mas a gente já fez algumas adaptações para artistas, mas produzir mesmo… A gente já fez isso no começo da Amapô. Produzia a peça para colocar em loja de multimarca, o que era pior ainda. Colocava na loja, encalhava lá e a gente se frustrava muito. Então agora a gente desencanou.
Você pode falar da paleta de cores da coleção?
Carô: A gente não faz isso! (risos) A gente faz muito pelo desejo e muito pelas cores que consegue achar para fazer o nosso desfile. Porque além de tudo, tecido aqui [no Brasil] é uma coisa que não existe. Por exemplo, a gente está fazendo para o masculino várias roupas de linho porque não tem outra opção de tecido. Se a gente pudesse, usaria alfaiataria linda e colorida, mas aqui não existe. Então qual a melhor opção? É linho que a roupa fica linda, tem para comprar e tem cor. Então a gente vai na loja, olha as cores que tem e pensa: ‘Que cor fica melhor para essa roupa? Ah, lilás. E essa?’… Automaticamente a cartela de cor vai se formando. A gente não precisa se preocupar muito com isso. Eu particularmente acho que cartela de cor é uma coisa que é necessária mais quando você vai coordenar uma equipe de estilo.
Pitty: É, a gente nunca fez cartela de cor.
Carô: A gente nunca faz porque é uma coisa meio…
Pitty: É muito duro. Você fica preso.
Carô: A gente faz isso de uma maneira mais gestual e mais intuitiva. Isso não significa que no final fica sem cartela de cor, mas a gente só consegue ver no final. E normalmente você consegue enxergar 3 níveis de cartela de cor: Eu tenho uma cartela de cor dos linhos, outra cartela de cor que se entrelaça do chifon e outra que pontua que vem dos acessórios. É uma coisa mais ou menos assim, entendeu? Pela primeira vez na história da Amapô a gente está fazendo roupa de chifon que é um tecido super cafona, mas resolvemos usar e tentar fazer uma coisa legal. Ficou incrível e maravilhosa! É uma roupa meio de ‘rumbeira salseira louca’ de chifon, mas a cor é chocolate e a modelagem é meio assim… ‘caída do trem’. Tudo tem que caminhar para a coisa não cair no óbvio. Se você fizer um vestido de chifon de um cor errada com uma modelagem óbvia fica parecendo vestido do Carlos Miele. Então a cor também ajuda a balancear o humor.
Tecido adamascado estampado
As estampas são um ponto forte da Amapô. Como vocês desenvolvem?
Carô: A gente sempre procura trabalhar a estampa em bases de tecidos inusitadas. Dessa vez, a gente pegou esse tecido horroroso que é uma sarja adamascada que é uma coisa assim: ‘Ai, que medo’. Mas aí a gente estampou e ficou maravilhoso. Bons drink! Vai ter muita crítica falando isso. Aí é quando vai fazer o release, é muito difícil para a gente. Dessa vez a gente fez um cardápio de drinks. Tem que ter alguma coisa falando da coleção até porque você tem que dar um guia para as pessoas depois escreverem.
Pitty: Se não, bem…
Carô: É assim: ‘Gente, vamos falar todas as coisas mais cafonas que a gente está fazendo’. Cascata de babado, chifon, franja de canutilho… Todo mundo fala. A modelista, a costureira, todo mundo fala. Depois a gente faz um texto assim meio maluco. Costuma funcionar.
Vimos na prova de roupa o modelo usando uma saia masculina que surgiu do blazer. Qual a ideia?
Carô: A gente trabalhou esse conceito do blazer-canga, blazer-sarongue. Então vai ter essa construção com blazer em cima e embaixo um pano amarrado. Porque a parte de cima é bem estruturada com vários recursos de alfaiataria bem rígidos. Ele é bem acinturado e molengo embaixo. Porque a gente veio de um inverno que fizemos o blazer masculino sem nenhuma estrutura, alguns não tinham nem forro, e eles tinham elastano que era para ficar bem justo. Então a gente quis ir para o extremo oposto.
Vocês já ficaram na dúvida quando viram a peça pronta?
Carô: A gente já cometeu erros de duvidar, colocar na passarela e depois se arrepender. Com o tempo a gente está adquirindo uma maturidade de realmente olhar e falar: ‘A roupa está pronta, deu um puta trabalho, mas não’. Por exemplo, dessa vez a gente fez uma peça piloto que a coitada da costureira ficou 5 dias costurando. Vou mostrar.
Pitty: Agora ela já está meio retalhada. Quem quis fazer essa roupa foi a Caro, mas quem deu o primeiro passo para falar que não estava legal fui eu. Ela fez uma cara de ‘Pitty, vou te jogar pela janela’. Mas mesmo assim eu fui falando, falando, falando. Ela era o dobro disso, não era?
Carô: É, tinha mais um pedaço, enfim… Não parou, ficou desabado. E, no fim, a gente achou que ficou literal demais. Parece mais uma fantasia de drink do que uma roupa que tenha o elemento. Então imagine o tanto de desapego que foi falar que a roupa que ela [a costureira] ficou costurando 5 dias não vai rolar. Agora eu estou aliviadíssima, estou feliz da vida porque a partir dessa decepção eu consegui criar uma coisa muito mais incrível.
Pitty: A gente viu que não era isso para ser feito. A gente precisava ver isso de qualquer maneira, entendeu?
Carô: Você vai ficar ‘eu devia ter feito’, então a gente faz. Ao mesmo tempo em que isso não deu certo, eu já tive roupas aqui que foi feito o piloto e ele já ficou tão incrível que já entrou na passarela porque a gente já fez com o próprio tecido. Era um vestido de talagarça do verão passado que era todo drapeado. Tinho um branco e um cru. O branco foi o piloto. Aqui acontece de tudo.
Pitty: É raro, mas acontece. Quando a gente dá sorte de fazer no próprio tecido da peça… melhor ainda.
Como vocês escolhem o casting?
Pitty: A gente gosta de gente nova. Então provavelmente o nosso casting acaba sendo meio único. Tem modelo que está em todos os desfiles, claro, mas a gente não pega nenhuma top. Tudo new face, tanto masculino, quanto feminino. Só tem o Pedro Frizon que a gente ama.
Carô: A gente já teve essa preocupação de tem que ter top.
Pitty: Primeiro abrimos mão dos meninos. A gente viu que deu certo e no outro desfile a gente abriu mão das meninas. Foi difícil!
Carô: A gente não usa as mega tops porque a gente não tem dinheiro.
Pitty: E a gente não gosta.
Carô: O casting era só menino new face e as meninas meio tops. Aí pesou de um jeito que a gente sentiu uma coisa esquisita. Aí, no desfile seguinte, a gente colocou só new face e colocou uma top. A gente começou a perceber que funciona muito mais. Além de tudo que a gente faz de jovem, o modelo também é new face.
Pitty: E eles não têm vício nenhum. A menina não vai chegar lá e ‘bater’. A gente faz do nosso jeito. Acaba que o nosso casting é um pouco diferente dos demais. Mas é muito difícil fazer.
Carô: A gente escolhe muito modelos que não pegou desfile nenhum. A menina vai embora. Não fica em São Paulo gastando dinheiro. Volta para Barbacena de não sei aonde. Se o nosso casting tem 24, uns 6 modelos na última hora tem que trocar. Ou às vezes uma modelo que a gente usou no desfile anterior que é maravilhosa no próximo ela desencanou de ser modelo.
Pitty: Principalmente os meninos.
Carô: Mas também sem apego nenhum. Eu não sofro. Acho maravilhoso, acho chiquérrimo.
E o que vocês escolheram como maquiagem do desfile?
Carô e Pitty: Boa pergunta!
Carô: O teste de make é hoje, mas já que você perguntou eu vou fazer o exercício para mim mesma e veja o que você acha.
Pitty: O cabelo atrapalha muito.
Carô: Eu desenhei todas elas com cabelo curto que é o que ficaria melhor com a silhueta da roupa. Então eu estou com esse problema porque nenhuma modelo aqui no Brasil tem o cabelo curto. O Ricardo dos Anjos vai vir aqui hoje e eu vou falar para ele tentar fazer alguma coisa do tipo daquelas que a gente faz quando é criança para ver ‘Como eu fico de franja?’. Eu queria que esse cabelo ficasse um pouco masculinizado para quebrar a salseira maluca. Uma boca bem vermelha ou rosa choque laqueada e um olho sem nada para ficar um pouco mais andrógeno.
Pitty: A gente tem que tirar coisas. O grande problema desses looks salseira é que se não tomar cuidado vai parecer o desfile do Carlos Miele e é tudo o que a gente não quer que pareça.
Carô: Não vai parecer porque a roupa já é doida, mas a gente quer GARANTIR! (risos)
Pitty: A gente costuma fazer muitas piadas dentro das nossas coleções. E essa coisa dos babados acaba sendo uma piada. Desde quando a gente faz isso? A gente não faz isso. É uma piada! Uma piada dentro do nosso universo. As pessoas que vão ver podem falar: ‘Ai, esses babados parecem Carlos Miele.’ Mas para a gente é outra coisa.
Carô: Eu estava num momento que eu estava viciada em So You Think You Can Dance. Eu chego em casa e a minha filha, eu tenho uma filha. Ela é bebê e não queria dormir. Eu ficava numa bateria American Idol e SYTYCD porque ela ama ver pessoas cantando e dançando. Então eu ficava lá. Eu danço, sou dançarina, dancei a vida inteira. Fiz ballet, jazz, flamenco, dança contemporânea e eu adoro. Eu ficava olhando e para mim a roupa tinha que ser assim: uma roupa de dança de salão.
Pitty: Só que tudo isso é uma piada.
Carô: É tudo uma piada e tudo isso vai se diluindo e se misturando com as outras coisas.
Pitty: É algo muito da nossa cabeça, sabe? Meio que ou você está dentro da gente o tempo todo do processo para nos entender ou fica meio complicado mesmo. A gente conversa, eu e Carô, sobre isso. A pessoa vai lá, vê o desfile, tira suas próprias conclusões. É uma coisa tipo: ‘Que bom que você tem esse trabalho.’ Mas, na verdade mesmo, você nunca vai falar o que realmente é porque nem eu posso explicar. E é muita burrice você querer explicar o inexplicável. As pessoas vão ver do jeito raso mesmo. Poucas pessoas conseguem absorver um pouco da realidade do que a gente está fazendo, mas isso é algo meio… tudo bem.
+ Confira a segunda parte do bate-papo Amapô sobre mercado de moda e blogs
Fotos: Luciana David, Frozi e Raquel Botelho - Moda Masculina](http://24.media.tumblr.com/tumblr_m6vylrvJ5S1qan0mao1_r1_500.jpg)
Uma conversa sobre os detalhes da coleção de Carô Gold e Pitty Taliani
por Gregory Martins
Confesso ter demorado bastante tempo para desapegar deste post. O meu olhar sobre o encontro que eu e a equipe do Tumblr tivemos com Carô Gold e Pitty Taliani, estilistas da Amapô, é quase pessoal.
O bate-papo dividido em 2 partes (Criação e Mercado de Moda Brasileiro) fala, sobretudo, a respeito de realidade no mercado de moda brasileiro. As perguntas partiram de diferentes interlocutores e, por este motivo, tomei a liberdade de sintetizar as questões e ocultar seus nomes para garantir o melhor entendimento geral. Mas, para os curiosos, todos os blogs listados aqui estavam presentes junto com a Equipe Brasil do Tumblr.
Dois dias antes da Amapô desfilar sua coleção de Verão 2013 no SPFW, visitamos o atelier da marca no Bom Retiro. As linhas abaixo são a transcrição de um dos melhores momentos dos meus anos como blogueiro.
Como surgiu o conceito da coleção?
Carô: Como tinha que ser uma coisa rápida, a gente costuma a pegar ideias que estão mais na superfície do todo o arquivo de ideias. A gente participa de um cruzeiro que é o Fashion Cruise onde a gente fez um workshop de estamparia dentro do cruzeiro. Então, cada pessoa fez um módulo da estampa. O tema era o próprio navio, o Fashion Cruise, o axé… As pessoas fizeram os desenhos. Tem mais de 30-40 desenhos e a gente juntou tudo isso e fez uma estampa. Então, acabou que a coleção veio um pouco desse universo de drinks, cruzeiro e salsa louca. A gente está trabalhando bastante com esse tipo de construção de enfeitizinho de drink, tem a estampa ‘Fashion Cruise’ que ficou incrível, outra estampa que é de drinks e estamos fazendo também looks que são os próprios drinks. Tem a estampa que a gente chama de ‘Aquarela Tropical’. Isso é meio que um hit da Amapô. A gente sempre tem uma estampa que é de pincelada. É sempre o Fábio Gurjão, que é nosso amigo, que sempre faz essas estampas para a gente.

Tem algum outro carry over nessa coleção?
Carô: No desifle não. No desfile é mais a estampa. Acho que não… Nunca tinha pensado muito bem sobre isso. No comercial, óbvio que eu tenho a pochete de franja que a gente já fez 6 vezes. A gente faz, espera vender porque é um negócio caro. Acaba de vender, a gente faz de novo, vende tudo e faz de novo… E o jeans. Mas no desifle não, porque a gente sempre tem que tentar fugir do que a gente fez da última vez.
Há clientes que procuram comprar a peça do desfile?
Carô: Raras pessoas ligam querendo, mas a gente não vende. Algumas salvas exceções a gente fala que pode fazer porque a roupa do desfile não vai caber na pessoa. Então a gente diz ‘Se você quiser muito eu posso fazer por encomenda pela bagatela de…’ E ai a pessoa desencana. Basicamente é isso. Mas a gente já fez algumas adaptações para artistas, mas produzir mesmo… A gente já fez isso no começo da Amapô. Produzia a peça para colocar em loja de multimarca, o que era pior ainda. Colocava na loja, encalhava lá e a gente se frustrava muito. Então agora a gente desencanou.

Você pode falar da paleta de cores da coleção?
Carô: A gente não faz isso! (risos) A gente faz muito pelo desejo e muito pelas cores que consegue achar para fazer o nosso desfile. Porque além de tudo, tecido aqui [no Brasil] é uma coisa que não existe. Por exemplo, a gente está fazendo para o masculino várias roupas de linho porque não tem outra opção de tecido. Se a gente pudesse, usaria alfaiataria linda e colorida, mas aqui não existe. Então qual a melhor opção? É linho que a roupa fica linda, tem para comprar e tem cor. Então a gente vai na loja, olha as cores que tem e pensa: ‘Que cor fica melhor para essa roupa? Ah, lilás. E essa?’… Automaticamente a cartela de cor vai se formando. A gente não precisa se preocupar muito com isso. Eu particularmente acho que cartela de cor é uma coisa que é necessária mais quando você vai coordenar uma equipe de estilo.
Pitty: É, a gente nunca fez cartela de cor.
Carô: A gente nunca faz porque é uma coisa meio…
Pitty: É muito duro. Você fica preso.
Carô: A gente faz isso de uma maneira mais gestual e mais intuitiva. Isso não significa que no final fica sem cartela de cor, mas a gente só consegue ver no final. E normalmente você consegue enxergar 3 níveis de cartela de cor: Eu tenho uma cartela de cor dos linhos, outra cartela de cor que se entrelaça do chifon e outra que pontua que vem dos acessórios. É uma coisa mais ou menos assim, entendeu? Pela primeira vez na história da Amapô a gente está fazendo roupa de chifon que é um tecido super cafona, mas resolvemos usar e tentar fazer uma coisa legal. Ficou incrível e maravilhosa! É uma roupa meio de ‘rumbeira salseira louca’ de chifon, mas a cor é chocolate e a modelagem é meio assim… ‘caída do trem’. Tudo tem que caminhar para a coisa não cair no óbvio. Se você fizer um vestido de chifon de um cor errada com uma modelagem óbvia fica parecendo vestido do Carlos Miele. Então a cor também ajuda a balancear o humor.

Tecido adamascado estampado
As estampas são um ponto forte da Amapô. Como vocês desenvolvem?
Carô: A gente sempre procura trabalhar a estampa em bases de tecidos inusitadas. Dessa vez, a gente pegou esse tecido horroroso que é uma sarja adamascada que é uma coisa assim: ‘Ai, que medo’. Mas aí a gente estampou e ficou maravilhoso. Bons drink! Vai ter muita crítica falando isso. Aí é quando vai fazer o release, é muito difícil para a gente. Dessa vez a gente fez um cardápio de drinks. Tem que ter alguma coisa falando da coleção até porque você tem que dar um guia para as pessoas depois escreverem.
Pitty: Se não, bem…
Carô: É assim: ‘Gente, vamos falar todas as coisas mais cafonas que a gente está fazendo’. Cascata de babado, chifon, franja de canutilho… Todo mundo fala. A modelista, a costureira, todo mundo fala. Depois a gente faz um texto assim meio maluco. Costuma funcionar.
Vimos na prova de roupa o modelo usando uma saia masculina que surgiu do blazer. Qual a ideia?
Carô: A gente trabalhou esse conceito do blazer-canga, blazer-sarongue. Então vai ter essa construção com blazer em cima e embaixo um pano amarrado. Porque a parte de cima é bem estruturada com vários recursos de alfaiataria bem rígidos. Ele é bem acinturado e molengo embaixo. Porque a gente veio de um inverno que fizemos o blazer masculino sem nenhuma estrutura, alguns não tinham nem forro, e eles tinham elastano que era para ficar bem justo. Então a gente quis ir para o extremo oposto.
Vocês já ficaram na dúvida quando viram a peça pronta?
Carô: A gente já cometeu erros de duvidar, colocar na passarela e depois se arrepender. Com o tempo a gente está adquirindo uma maturidade de realmente olhar e falar: ‘A roupa está pronta, deu um puta trabalho, mas não’. Por exemplo, dessa vez a gente fez uma peça piloto que a coitada da costureira ficou 5 dias costurando. Vou mostrar.

Pitty: Agora ela já está meio retalhada. Quem quis fazer essa roupa foi a Caro, mas quem deu o primeiro passo para falar que não estava legal fui eu. Ela fez uma cara de ‘Pitty, vou te jogar pela janela’. Mas mesmo assim eu fui falando, falando, falando. Ela era o dobro disso, não era?
Carô: É, tinha mais um pedaço, enfim… Não parou, ficou desabado. E, no fim, a gente achou que ficou literal demais. Parece mais uma fantasia de drink do que uma roupa que tenha o elemento. Então imagine o tanto de desapego que foi falar que a roupa que ela [a costureira] ficou costurando 5 dias não vai rolar. Agora eu estou aliviadíssima, estou feliz da vida porque a partir dessa decepção eu consegui criar uma coisa muito mais incrível.
Pitty: A gente viu que não era isso para ser feito. A gente precisava ver isso de qualquer maneira, entendeu?
Carô: Você vai ficar ‘eu devia ter feito’, então a gente faz. Ao mesmo tempo em que isso não deu certo, eu já tive roupas aqui que foi feito o piloto e ele já ficou tão incrível que já entrou na passarela porque a gente já fez com o próprio tecido. Era um vestido de talagarça do verão passado que era todo drapeado. Tinho um branco e um cru. O branco foi o piloto. Aqui acontece de tudo.
Pitty: É raro, mas acontece. Quando a gente dá sorte de fazer no próprio tecido da peça… melhor ainda.

Como vocês escolhem o casting?
Pitty: A gente gosta de gente nova. Então provavelmente o nosso casting acaba sendo meio único. Tem modelo que está em todos os desfiles, claro, mas a gente não pega nenhuma top. Tudo new face, tanto masculino, quanto feminino. Só tem o Pedro Frizon que a gente ama.
Carô: A gente já teve essa preocupação de tem que ter top.
Pitty: Primeiro abrimos mão dos meninos. A gente viu que deu certo e no outro desfile a gente abriu mão das meninas. Foi difícil!
Carô: A gente não usa as mega tops porque a gente não tem dinheiro.
Pitty: E a gente não gosta.
Carô: O casting era só menino new face e as meninas meio tops. Aí pesou de um jeito que a gente sentiu uma coisa esquisita. Aí, no desfile seguinte, a gente colocou só new face e colocou uma top. A gente começou a perceber que funciona muito mais. Além de tudo que a gente faz de jovem, o modelo também é new face.
Pitty: E eles não têm vício nenhum. A menina não vai chegar lá e ‘bater’. A gente faz do nosso jeito. Acaba que o nosso casting é um pouco diferente dos demais. Mas é muito difícil fazer.
Carô: A gente escolhe muito modelos que não pegou desfile nenhum. A menina vai embora. Não fica em São Paulo gastando dinheiro. Volta para Barbacena de não sei aonde. Se o nosso casting tem 24, uns 6 modelos na última hora tem que trocar. Ou às vezes uma modelo que a gente usou no desfile anterior que é maravilhosa no próximo ela desencanou de ser modelo.
Pitty: Principalmente os meninos.
Carô: Mas também sem apego nenhum. Eu não sofro. Acho maravilhoso, acho chiquérrimo.

E o que vocês escolheram como maquiagem do desfile?
Carô e Pitty: Boa pergunta!
Carô: O teste de make é hoje, mas já que você perguntou eu vou fazer o exercício para mim mesma e veja o que você acha.
Pitty: O cabelo atrapalha muito.
Carô: Eu desenhei todas elas com cabelo curto que é o que ficaria melhor com a silhueta da roupa. Então eu estou com esse problema porque nenhuma modelo aqui no Brasil tem o cabelo curto. O Ricardo dos Anjos vai vir aqui hoje e eu vou falar para ele tentar fazer alguma coisa do tipo daquelas que a gente faz quando é criança para ver ‘Como eu fico de franja?’. Eu queria que esse cabelo ficasse um pouco masculinizado para quebrar a salseira maluca. Uma boca bem vermelha ou rosa choque laqueada e um olho sem nada para ficar um pouco mais andrógeno.
Pitty: A gente tem que tirar coisas. O grande problema desses looks salseira é que se não tomar cuidado vai parecer o desfile do Carlos Miele e é tudo o que a gente não quer que pareça.
Carô: Não vai parecer porque a roupa já é doida, mas a gente quer GARANTIR! (risos)
Pitty: A gente costuma fazer muitas piadas dentro das nossas coleções. E essa coisa dos babados acaba sendo uma piada. Desde quando a gente faz isso? A gente não faz isso. É uma piada! Uma piada dentro do nosso universo. As pessoas que vão ver podem falar: ‘Ai, esses babados parecem Carlos Miele.’ Mas para a gente é outra coisa.
Carô: Eu estava num momento que eu estava viciada em So You Think You Can Dance. Eu chego em casa e a minha filha, eu tenho uma filha. Ela é bebê e não queria dormir. Eu ficava numa bateria American Idol e SYTYCD porque ela ama ver pessoas cantando e dançando. Então eu ficava lá. Eu danço, sou dançarina, dancei a vida inteira. Fiz ballet, jazz, flamenco, dança contemporânea e eu adoro. Eu ficava olhando e para mim a roupa tinha que ser assim: uma roupa de dança de salão.
Pitty: Só que tudo isso é uma piada.
Carô: É tudo uma piada e tudo isso vai se diluindo e se misturando com as outras coisas.
Pitty: É algo muito da nossa cabeça, sabe? Meio que ou você está dentro da gente o tempo todo do processo para nos entender ou fica meio complicado mesmo. A gente conversa, eu e Carô, sobre isso. A pessoa vai lá, vê o desfile, tira suas próprias conclusões. É uma coisa tipo: ‘Que bom que você tem esse trabalho.’ Mas, na verdade mesmo, você nunca vai falar o que realmente é porque nem eu posso explicar. E é muita burrice você querer explicar o inexplicável. As pessoas vão ver do jeito raso mesmo. Poucas pessoas conseguem absorver um pouco da realidade do que a gente está fazendo, mas isso é algo meio… tudo bem.
+ Confira a segunda parte do bate-papo Amapô sobre mercado de moda e blogs
Fotos: Luciana David, Frozi e Raquel Botelho