
Blogs, cultura de moda brasileira e a crítica
por Gregory Martinswh
Nesta segunda parte do bate-papo com Carô Gold e Pitty Taliani, estilistas da Amapô, ficam evidentes os problemas de uma crítica de moda brasileira que não se renova. A conversa vai além e alguns pontos são levantados sobre até onde os comentários sobre uma coleção afetam as vendas e o giro real da marca.
+ Confira a primeira parte do bate-papo com a Amapô sobre processo criativo
Os interlocutores continuam variados e, por este motivo, as perguntas foram sintetizadas e seus nomes ocultados para melhor entendimento.
Volto a dizer: As linhas abaixo são a transcrição de um dos melhores momentos dos meus anos como blogueiro.

A coleção desfilada tem algum impacto direto com a venda das peças comerciais? Às vezes vende mais ou não de acordo com o desfile?
Carô: Olha, eu não deveria dizer isso, mas não tem nada a ver uma coisa com a outra. Até por conta da cultura de moda aqui no Brasil que é muito pobre ainda e as pessoas tem muito pouco interesse por estilo, por se vestir, por ousar, por criar um estilo próprio… A gente não tem como ficar se preocupando com isso. Até porque se não a gente vai ficar sofrendo. Então, fazemos o desfile com o que a gente quiser. O comercial a gente faz o mais comercial que a gente consegue fazer e ainda não é o suficiente. A única coisa que se transporta da passarela para o comercial é a estampa. Então todas as estampas que tem no desfile vai ter para você comprar no camisetão de malha. O resto nada. Porque se a gente quiser ficar querendo criar um meio termo, vamos criar um desfile medíocre e uma coleção comercial não-comercial. A gente há algum tempo já se conformou com essa realidade. Provavelmente se você for perguntar para alguma outra marca a pessoa vai falar que sim… Mas aqui não.
E como funciona a produção de vocês? Sem parar ou você aguardam intervalos de tempo até vender o estoque?
Pitty: O jeans nunca para! Vamos contar que a gente tem 20 calças jeans por coleção, 10 desses jeans são básicos, então a produção não para nunca. Os outros 10… O que é sucesso a gente até faz um pouco mais, mas procuramos não fazer para ficar uma coisa limitada mesmo.
Carô: Acabou? Acabou, fia!
Com as parcerias recentes de redes de fast fashion, você já receberam algum convite?
Carô: Claro que não. (risos)
Pitty: A gente recebeu da C&A. Só que era uma coisa muito particular. Era para fazer uma coleção de carnaval. Acho que eles ficaram um pouco assustados.
Carô: Gente, eu não to falando para vocês sentarem que a situação aqui…

Como vocês enxergam a mescla de marcas mais pretensiosas e menos despretensiosas no SPFW?
Pitty: Isso é o mundo! A única coisa que acontece e é ruim para a gente é que a gente acaba entrando num bolo todo. E esse bolo todo tem muitos porquês. Você não pode virar e dizer que o desfile tal foi o melhor do SPFW. Você tem que pegar Colcci, Ellus.. faz parte de um grupo. Alexandre, Reinaldo… faz parte de outro. Amapo e não sei quem faz parte de outro. Tem esses lados. Se você entrar num todo é uma piada! Você se achar ruim porque você não aparece. E cada marca tem a sua história. Não existe melhor desfile em um evento. Você tem um público alvo, um tipo de moda… O outro é o outro. Virar tudo uma coisa só eu acho uma falta de respeito muito grande. Não é por isso que a gente não faz. A gente faz, a gente gosta de fazer, a gente acredita. Mas é a aquela coisa… Enquanto não morrer meia dúzia, eu vou estar lá e vou ser sempre a nova estilista. A partir do momento em que morrer meia dúzia, a gente vai começar a subir. E aí vai ter que trocar. Tem que ter o novo que vai ser xoxado e vai ter a gente que vai começar a ser legal.
Carô: Na verdade, esse é um parecer que cabe a vocês e a cultura de moda do Brasil. Para vocês mudarem. Esse é um parecer da situação atual. A gente está sujeito a críticos de moda…
Pitty: Velhos! E eles usam muito do gosto pessoal.
Carô: Velhos! Não tem como a Glória Kalil gostar da minha roupa, não tem como a Lilian… Não tem como! Vocês são blogueiros. Os blogueiros que é são os críticos, que tinham que ser. Vocês deviam estar trabalhando nos veículos. Eu tenho certeza que, para vocês, é muito difícil ter credibilidade nos veículos do mesmo jeito que para a gente também é. Apesar da gente já ser velha. (risos)
Pitty: A gente sempre vai ser o novo. Fomos as últimas, entre aspas, a entrar no SPFW.
Carô: Agora provavelmente com o Hotspot vai dar uma gingada. Eu falei: ‘Gente, se inscreve todo mundo. Se precisar de orientação vem aqui, traz o projeto. Se precisar de ajuda…’ Além de tudo, os últimos eventos de novos designers que eu vi, teve um da MTV.. Tipo, muito ruim. Eles são muito duros e são muito desacreditados.

Vocês recebem as críticas internacionais do seu desfile?
Pitty: A gente recebe e são sempre muito melhores, é uma coisa absurda. Tem veículo que escolhe 3-4 marcas e a gente sempre está no meio.
Carô: Você nunca pode acreditar completamente no que a pessoa está dizendo. Teve um vestido que era todo de pétalas estampadas que num dia foi mega xoxado aqui em São Paulo. No dia seguinte, saiu no jornal de Paris uma foto do look falando ‘uau’. A gente não pode acreditar no ‘Nossa, você é um máximo’ e nem acreditar no ‘Ah, você é cafona’. Tem que fazer o seu trabalho, o que você acredita. É o que a gente fala para todo mundo que vem aqui fazer entrevista com a gente: O mais gostoso de tudo isso é o processo. Quando a gente está aqui dentro fazendo as coisas. Briga, resolve, faz a peça, fica lindo, dá risada, dá errado, resolve… O legal de fazer desfile é isso, é estar envolvido com alguma coisa emocionalmente. Isso que é enriquecedor. Não é se as pessoas vão achar que é bonito ou não. Então a gente está aqui no Bom Retiro e a gente costuma falar que o nosso atelier é Downtown.
Pitty: Eu me sinto em Chinatown. É um máximo. Eu não quero estar no Itaim.
Carô: Esse negócio da crítica… whatever.
Mas a crítica negativa afeta as vendas?
Carô e Pitty: Não!
Pitty: A única coisa que afeta é… Não me venha o cara que falou mal querer vir aqui no meu atelier falar comigo.
Carô: Como já aconteceu.
Pitty: Eu não vou olhar para a cara desse cara. Ele não me entende, eu não quero, eu não preciso. A gente sempre fala: Eu prefiro estudante de moda. Pode vir quem quiser. Mas esse cara vir aqui para quê? Perder meu tempo?!
Carô: Eu costumo dizer que a gente está aqui lutando pela cultura de moda no Brasil. Na medida do possível. O nosso país tem muitos problemas econômicos e culturais. Realmente a moda não é uma coisa muito mais importante. Assim como o Alexandre foi abrindo caminhos para a gente, a gente vai abrindo espaço pros outros… A nossa função é essa. A gente continua. A gente acredita nisso. Tem que forçar a barra, tem que se arriscar. É isso que deixa o negócio fresco. Bom ou ruim, a gente está sempre causando.
Pitty: Não dá para ficar achando que neguinho vai pensar que você está ditando moda. As pessoas daqui e todo mundo que está ao redor acha muito mais legal você ter uma roupa lá de fora do que aqui de dentro. E é assim que funciona. O lá de fora é melhor, mais legal e sempre vai ser porque a gente não acredita no nosso país. Isso é cultural, é geral. Você vai nos EUA e tem neguinho que tem bandeira americana em toda janela. No Brasil você vê uma bandeira brasileira na Copa e olhe lá.
Carô: Aliás, eu ia falar, o próximo desfile que a gente tiver vai ser futebol. (risos)
Pitty: Porque aí, meu amor, aí é que pega! (risos) Sempre futebol. É isso, as pessoas não acreditam. As pessoas acham legal xoxar você. No Brasil, se você fala mal de alguém é porque você é esperto. É mais fácil falar mal. É muito difícil quando você vê uma coisa que não compreende e não aceita isso porque não entende. Então, fala mal mesmo porque não precisa ter propriedade para falar mal. A gente já teve um desfile degradê. Neguinho falou mal pra cacete! Depois 2-3 temporadas seguidas todo mundo monocromático e fazendo desfile degradê. Todo mundo era rei lá fora e a gente palhaça aqui dentro. É uma pena porque em Londres, por exemplo, se você descobre um novo estilista você vira rei. Lá as pessoas vão atrás do novo. Aqui não existe isso, não tem essa sede. É uma pena porque perde muita coisa. Realmente, não tem ninguém novo. O novo muda tudo, para os velhos lá de cima darem uma sambada e acordar.
Vocês sentem que evoluíram?
Pitty: A marca evoluiu e a gente amadureceu muito. A cada desfile a gente aprende pelos erros e pelos acertos. Agora eu acho que a gente precisa de uma chacoalhada. Está muito certinho dentro do nosso padrão. Está muito correto e desse jeito eu já sei fazer. Não quero mais fazer isso. Eu tento ser a melhor, pelo menos do meu ponto de vista.

Fotos: Luciana David, Frozi e Raquel Botelho
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