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MDNA Tour em Dublin
A resenha completa sobre a nova turnê mundial de Madonna
por André Oliveira em colaboração especial
Me lembro de ter lido uma matéria sobre a Sticky & Sweet Tour em 2008 na qual o título dizia, não exatamente com essas palavras, que Madonna simplesmente deixava a bola rolar. Se naquela época, aos 49 anos, ela deixava a bola rolar, agora com 53 ela corre de uma área à outra, atravessa o meio campo todo driblando e marca um belíssimo gol. Sua nova turnê, The MDNA Tour, não só é grande em tamanho. É grande em espetáculo. Trocadilhos à parte parece sim ter uma mãozinha de Deus ali.

Logo que soube do show da maior estrela do pop nos últimos 30 anos, já me preparei para comprar os ingressos pela internet no primeiro dia. Não achei que iria acontecer como no Brasil e esgotar tudo em algumas horas, pois já haviam me falado que aqui na Europa os shows não são aquela loucura a que nós brasileiros estamos acostumados. Doce engano. No primeiro dia de vendas, logo à tarde já não havia nenhum ingresso disponível para o Gold Circle – o Premium no Brasil. O desespero me fez comprar um Pitch Standing (pista), ao invés de me permitir esperar e tentar a sorte depois.
Passado o primeiro passo, vieram os quase seis meses de espera, que agora parecem ter corrido rápido até demais. Há um mês fui checar o site da Ticketmaster e, por sorte, havia um Gold Circle Ticket, que tratei de comprar na mesma hora. Eu já estava realizado, nada poderia ser mais perfeito. Segundo doce engano.

Cheguei cedo ao Aviva Stadium em Dublin, que já é um show à parte, diga-se de passagem, e consegui ser o 9º da fila. Apesar de ser cedo, ninguém lá teve que madrugar e muito menos dormir dias dentro de barracas para ficar na frente. Tirando a chuva fina que persistia firmemente, tudo estava muito organizado e tranquilo. Aos poucos (bem aos poucos, é verdade) as pessoas foram chegando. Na minha frente, três franceses que estavam ali para assistir o 5º de uma maratona de 7 shows da mesma turnê, inclusive a disputadíssima performance no teatro L’Olympia de hoje (26 de julho). A única coisa da qual senti falta foi a empolgação das pessoas já na fila, cantando e dançando. Todos comportados… até demais.
Cheguei na entrada para o portão e, enquanto aguardava ouvindo a passagem de som, uma promoter chegou com um megafone explicando que seriam sorteadas em torno de 33 pessoas para o Golden Triangle, uma área que fica entre as duas passarelas e te permite ‘fazer parte do show’. O sorteio seria realizado através de um aplicativo simples no iPad e você e mais um amigo teriam a chance de experimentar ‘uma experiência única’, nas palavras dela. Era simples, você tocava no meio da tela. Vermelho: Talvez da próxima vez. Verde: Parabéns! Já pode começar a gritar e pular. Eu não tive a sorte de tirar o verde, mas meu amigo, que estava logo atrás de mim, apertou e TCHAN. Verde! Ele insistiu e ela deu mais uma pulseira, iríamos em três para o Golden Triangle. Agora sim, não tinha como ficar mais perfeito!

O Golden Triangle é realmente fantástico. É como um show particular. Pouquíssimas pessoas ficam lá dentro, você pode sair e voltar tranquilamente. Mesmo sob uma forte chuva e um público que não ajudava, consegui aproveitar muito do que, ouso dizer, é a melhor turnê da Madonna até agora.
Dessa vez com muito mais elementos teatrais do que nas turnês anteriores, o show se inicia com o grupo Kalakan (pelo qual fiquei apaixonado) em uma introdução super mítica com canto gregoriano enquanto rolam projeções de uma catedral e uma cruz gigantesca onde lê-se MDNA. Alguns dançarinos cobertos com mantos da cabeça aos pés e outros vestidos de demônios dão um show à parte. Sem esquecer o defumador gigante que balança de um lado para o outro sobre a cabeça de quem está no triângulo. Eis que entra ela, a Rainha, em seu trono em formato de confessionário com direito a arma na mão, véu preto e coroa. Afinal, que graça tem se for sem polêmica, certo? Ela começa o primeiro verso de Girl Gone Wild, que também é a música inicial do CD que dá nome à turnê, MDNA. A partir daí é uma montanha russa. O primeiro bloco do show, apelidado por ela de ‘Transgression’ passa como um tiro. Tiro, aliás, presente em todo o conceito dessa primeira parte. Destaque para a incrível Gang Bang que ganha como cenário um quartinho de motel onde vemos Madonna matando sem piedade. E tem surpresa no meio da música, te garanto. O bloco se encerra com uma performance incrível de I Don’t Give A, em que ela meio canta, meio faz rap e meio toca guitarra ao mesmo tempo. Nicki Minaj manda seu recado nos telões, igualmente incrível.

A segunda parte do show é curta e um deleite aos olhos e ouvidos. A tão polêmica versão de Express Yourself misturada a curtíssimos trechos de Born This Way parece simplesmente fazer parte do contexto. Eu já havia visto vídeos e pensei ‘meu Deus, vai ter monstrinho se mordendo’, mas por incrível que pareça, não é bem assim. Born This Way surge naturalmente, mais como um complemento à música original do que outra coisa. Estaria a espertinha Madonna querendo então dizer nas entrelinhas que Express Yourself (onde os versos são cantados mais fortemente) não será superada? A resposta está no final da música. Sem tempo pra respirar, chega Give Me All Your Luvin’ em uma versão totalmente remixada e com uma batida incrível. A música, que é praticamente outra que não a mesma do CD, te deixa em êxtase enquanto dançarinos vestidos de soldadinhos tocam tarol pendurados em cima da sua cabeça. Confesso que deixando meu lado fã de lado, não entendi as críticas quanto ao figurino e à atitude ‘menininha’ da Madonna nessa parte do show. Ela canta somente duas músicas com um figurino que é maravilhosamente detalhado e não a deixa de forma alguma parecendo uma adolescente. Acredite, uma coisa que Madonna sabe é quantos anos ela tem, e esse show mostra isso. Engano daqueles que a chamam de velha achando que insultam.

Como um jato, ela troca de roupa e surge com figurino, cabelo e maquiagem completamente diferentes. Começa um bloco mais calmo e sem muitas surpresas. O grupo Kalakan tem então sua maior participação, inclusive cantando uma parte de uma música própria em uma versão bem inovadora de Open Your Heart. Masterpiece, que fecha o bloco e faz parte da trilha sonora do recente W.E., filme dirigido pela multi-facetada Madonna, está lindíssima ao vivo. Pura, limpa e vocalmente emocionante. De encher os olhos, literalmente.
Surge então um belíssimo, provocativo e muito, mas muito sensual vídeo de Justify My Love. O bloco com o figurino mais notável (graças, é claro, à releitura do famoso sutiã cônico e icônico, assinada novamente por Jean Paul Gautier) finalmente se inicia com um desfile de moda ao som de Vogue. A androgenia é um ponto chave no conceito todo. Madonna chega do meio dos telões principais em uma armação de espelhos pendurada ao teto. Toda a sensualidade do bloco culmina na maravilhosa versão de Like A Virgin. Espero não estar blasfemando novamente, mas acho essa a mais bela performance de toda a história musical da cantora. Chega a ser visceral a versão grave e ao piano da música que mais marcou sua carreira. Você se pega prendendo a respiração quando o dançarino aperta nela um espartilho que deixa seu quadril como naquelas fotos inacreditáveis que você acha no google. E ela continua cantando! Chorei pela segunda vez enquanto não conseguia abrir a boca, só admirar.

A última parte começa logo depois do costumeiro vídeo-crítica, que dessa vez tem como tema a opressão, mostrando os garotos que se suicidaram por sofrerem bullying, Hitler e manchetes dizendo que Madonna é muito velha para o pop. Mais uma obra prima. Como já parece ser de praxe, Madonna chega para cantar as últimas músicas com o figurino mais, digamos assim, ‘exótico’. Dessa vez, ela vem como uma versão contemporânea de Joana D’Arc, quase inteiramente brilhante. A primeira música, I’m Addicted, foi a que mais me surpreendeu já que não era nem de longe uma das minhas preferidas do álbum; é difícil não se surpreender com a sua versão repaginada, que traz uma batida sem precedentes. Depois de mais uma performance na guitarra, dessa vez com a ajuda dos três cantores do Kalakan, vem a sempre adorada Like A Prayer. Ela chega com uma pegada clássica do CD, mas com uma batida levemente mais forte e traz consigo um coral em carne e osso. É o momento do show em que Madonna dá o microfone para algumas pessoas cantarem, pega na mão de outras, fala algumas coisinhas…

A música final é Celebration, o que deixou muitos fãs irados por não ser um grande hit. Dizem por aí que não se pode agradar gregos e troianos, não é? A batida lembra bastante o remix de Benny Benassi (o mesmo usado no video clipe oficial) mas há algo novo no fundo. A coreografia envolve todos os dançarinos e acontece em todas as partes do palco. Tudo termina no palco principal, sobre os incríveis cubos móveis de LED com passos de dança que fazem referência aos DJs. Madonna agradece já sumindo para baixo do palco e você fica ali extasiado com vontade de celebrar mais com a Rainha do Pop.
Passado o choque inicial conseguimos analisar pontos importantes e entender alguns detalhes. O que mais me deixou frustrado foi a falta de empolgação do público europeu em geral. Madonna tentava com todas as forças animar um Aviva Stadium lotado e era comum pedir para que cantássemos junto. Ela chegou a mandar um sincero ‘I can’t hear you!’ que, tenho certeza, eu nunca ouviria no Brasil. Pelo menos a chuva forte que caiu durante boa parte do show rendeu momentos engraçados, como quando ela comentou logo no começo que seu cabelo estava uma ‘merda’ ou quando ela perguntou com um tom ácido e irônico se achávamos que ela gostava de ficar molhada, logo depois de mostrar o bumbum ao fim de Human Nature.

Um ponto interessante de ter ficado no Golden Triangle foi captar o lado técnico do espetáculo. Madonna está sempre dando ordens que não são ouvidas pela parte do público que não está muito perto. Em um momento da metade do show ela mandou um quase irritado ‘where are the backing vocals?’ e na última música reclamou duas vezes do seu retorno, pedindo para aumentarem o volume de alguns instrumentos. E tenho que confessar que ri ao ouvi-la reclamar de um dos espelhos usados em Human Nature que estava com um pedaço estragado.
E tudo isso, fosse pulando, dançando ou andando sobre cordas (o famoso slackline), sem nem um pinguinho de playback. É possível perceber quando ela dá umas escorregadas no tom ou quando para e fala algo ao invés de cantar, o que no final só dá um toque orgânico ao espetáculo que visivelmente já foi exaustivamente ensaiado. E ela dança muito e incrivelmente bem ao mesmo tempo, o que é a causa (ou seria consequência?) do seu corpo perfeito. Não posso mentir e dizer que ela está com um rosto jovem, mas acredite, ela assume ser quem é e assume muito bem seus deliciosos 53 anos. Quem também merece os sinceros parabéns é o grupo de criação visual, o mesmo que trabalha com o Cirque du Soleil, que desenvolveu um trabalho primoroso.

Pretendo agora assistir mais um show em algum país mais quente da Europa, onde, espero eu, o povo seja mais caloroso e vibrante, pois realmente senti falta da energia que presenciei em São Paulo em 2008. Começo a entender quando falam que não há povo como brasileiro. Sobre Madonna, posso dizer que nunca esquecerei o momento em que ela ficou cara a cara comigo em Like A Prayer. Sobre a MDNA Tour eu digo: Madonna dá ao público exatamente o que ele quer sem deixar de ser criativa, inovadora, lançadora de tendências, orgânica mesmo que muito bem coreografada e autêntica acima de tudo. Nicki Minaj resume perfeitamente em rap o que todo mundo já sabe (ou deveria saber): ‘There’s only one Queen, and that’s Madonna.’ 
Imperdível, indescritível, indestrutível. - Moda Masculina

MDNA Tour em Dublin

A resenha completa sobre a nova turnê mundial de Madonna

por André Oliveira em colaboração especial

Me lembro de ter lido uma matéria sobre a Sticky & Sweet Tour em 2008 na qual o título dizia, não exatamente com essas palavras, que Madonna simplesmente deixava a bola rolar. Se naquela época, aos 49 anos, ela deixava a bola rolar, agora com 53 ela corre de uma área à outra, atravessa o meio campo todo driblando e marca um belíssimo gol. Sua nova turnê, The MDNA Tour, não só é grande em tamanho. É grande em espetáculo. Trocadilhos à parte parece sim ter uma mãozinha de Deus ali.

Nova turnê mundial de Madonna é enorme

Logo que soube do show da maior estrela do pop nos últimos 30 anos, já me preparei para comprar os ingressos pela internet no primeiro dia. Não achei que iria acontecer como no Brasil e esgotar tudo em algumas horas, pois já haviam me falado que aqui na Europa os shows não são aquela loucura a que nós brasileiros estamos acostumados. Doce engano. No primeiro dia de vendas, logo à tarde já não havia nenhum ingresso disponível para o Gold Circle – o Premium no Brasil. O desespero me fez comprar um Pitch Standing (pista), ao invés de me permitir esperar e tentar a sorte depois.

Passado o primeiro passo, vieram os quase seis meses de espera, que agora parecem ter corrido rápido até demais. Há um mês fui checar o site da Ticketmaster e, por sorte, havia um Gold Circle Ticket, que tratei de comprar na mesma hora. Eu já estava realizado, nada poderia ser mais perfeito. Segundo doce engano.

MDNA Tour de Madonna em Dublin

Cheguei cedo ao Aviva Stadium em Dublin, que já é um show à parte, diga-se de passagem, e consegui ser o 9º da fila. Apesar de ser cedo, ninguém lá teve que madrugar e muito menos dormir dias dentro de barracas para ficar na frente. Tirando a chuva fina que persistia firmemente, tudo estava muito organizado e tranquilo. Aos poucos (bem aos poucos, é verdade) as pessoas foram chegando. Na minha frente, três franceses que estavam ali para assistir o 5º de uma maratona de 7 shows da mesma turnê, inclusive a disputadíssima performance no teatro L’Olympia de hoje (26 de julho). A única coisa da qual senti falta foi a empolgação das pessoas já na fila, cantando e dançando. Todos comportados… até demais.

Cheguei na entrada para o portão e, enquanto aguardava ouvindo a passagem de som, uma promoter chegou com um megafone explicando que seriam sorteadas em torno de 33 pessoas para o Golden Triangle, uma área que fica entre as duas passarelas e te permite ‘fazer parte do show’. O sorteio seria realizado através de um aplicativo simples no iPad e você e mais um amigo teriam a chance de experimentar ‘uma experiência única’, nas palavras dela. Era simples, você tocava no meio da tela. Vermelho: Talvez da próxima vez. Verde: Parabéns! Já pode começar a gritar e pular. Eu não tive a sorte de tirar o verde, mas meu amigo, que estava logo atrás de mim, apertou e TCHAN. Verde! Ele insistiu e ela deu mais uma pulseira, iríamos em três para o Golden Triangle. Agora sim, não tinha como ficar mais perfeito!

Golden Triangle of MDNA Tour in Dublin

O Golden Triangle é realmente fantástico. É como um show particular. Pouquíssimas pessoas ficam lá dentro, você pode sair e voltar tranquilamente. Mesmo sob uma forte chuva e um público que não ajudava, consegui aproveitar muito do que, ouso dizer, é a melhor turnê da Madonna até agora.

Dessa vez com muito mais elementos teatrais do que nas turnês anteriores, o show se inicia com o grupo Kalakan (pelo qual fiquei apaixonado) em uma introdução super mítica com canto gregoriano enquanto rolam projeções de uma catedral e uma cruz gigantesca onde lê-se MDNA. Alguns dançarinos cobertos com mantos da cabeça aos pés e outros vestidos de demônios dão um show à parte. Sem esquecer o defumador gigante que balança de um lado para o outro sobre a cabeça de quem está no triângulo. Eis que entra ela, a Rainha, em seu trono em formato de confessionário com direito a arma na mão, véu preto e coroa. Afinal, que graça tem se for sem polêmica, certo? Ela começa o primeiro verso de Girl Gone Wild, que também é a música inicial do CD que dá nome à turnê, MDNA. A partir daí é uma montanha russa. O primeiro bloco do show, apelidado por ela de ‘Transgression’ passa como um tiro. Tiro, aliás, presente em todo o conceito dessa primeira parte. Destaque para a incrível Gang Bang que ganha como cenário um quartinho de motel onde vemos Madonna matando sem piedade. E tem surpresa no meio da música, te garanto. O bloco se encerra com uma performance incrível de I Don’t Give A, em que ela meio canta, meio faz rap e meio toca guitarra ao mesmo tempo. Nicki Minaj manda seu recado nos telões, igualmente incrível.

Madonna em MDNA Tour

A segunda parte do show é curta e um deleite aos olhos e ouvidos. A tão polêmica versão de Express Yourself misturada a curtíssimos trechos de Born This Way parece simplesmente fazer parte do contexto. Eu já havia visto vídeos e pensei ‘meu Deus, vai ter monstrinho se mordendo’, mas por incrível que pareça, não é bem assim. Born This Way surge naturalmente, mais como um complemento à música original do que outra coisa. Estaria a espertinha Madonna querendo então dizer nas entrelinhas que Express Yourself (onde os versos são cantados mais fortemente) não será superada? A resposta está no final da música. Sem tempo pra respirar, chega Give Me All Your Luvin’ em uma versão totalmente remixada e com uma batida incrível. A música, que é praticamente outra que não a mesma do CD, te deixa em êxtase enquanto dançarinos vestidos de soldadinhos tocam tarol pendurados em cima da sua cabeça. Confesso que deixando meu lado fã de lado, não entendi as críticas quanto ao figurino e à atitude ‘menininha’ da Madonna nessa parte do show. Ela canta somente duas músicas com um figurino que é maravilhosamente detalhado e não a deixa de forma alguma parecendo uma adolescente. Acredite, uma coisa que Madonna sabe é quantos anos ela tem, e esse show mostra isso. Engano daqueles que a chamam de velha achando que insultam.

Give me all yout luvin in MDNA Tour

Como um jato, ela troca de roupa e surge com figurino, cabelo e maquiagem completamente diferentes. Começa um bloco mais calmo e sem muitas surpresas. O grupo Kalakan tem então sua maior participação, inclusive cantando uma parte de uma música própria em uma versão bem inovadora de Open Your Heart. Masterpiece, que fecha o bloco e faz parte da trilha sonora do recente W.E., filme dirigido pela multi-facetada Madonna, está lindíssima ao vivo. Pura, limpa e vocalmente emocionante. De encher os olhos, literalmente.

Surge então um belíssimo, provocativo e muito, mas muito sensual vídeo de Justify My Love. O bloco com o figurino mais notável (graças, é claro, à releitura do famoso sutiã cônico e icônico, assinada novamente por Jean Paul Gautier) finalmente se inicia com um desfile de moda ao som de Vogue. A androgenia é um ponto chave no conceito todo. Madonna chega do meio dos telões principais em uma armação de espelhos pendurada ao teto. Toda a sensualidade do bloco culmina na maravilhosa versão de Like A Virgin. Espero não estar blasfemando novamente, mas acho essa a mais bela performance de toda a história musical da cantora. Chega a ser visceral a versão grave e ao piano da música que mais marcou sua carreira. Você se pega prendendo a respiração quando o dançarino aperta nela um espartilho que deixa seu quadril como naquelas fotos inacreditáveis que você acha no google. E ela continua cantando! Chorei pela segunda vez enquanto não conseguia abrir a boca, só admirar.

A última parte começa logo depois do costumeiro vídeo-crítica, que dessa vez tem como tema a opressão, mostrando os garotos que se suicidaram por sofrerem bullying, Hitler e manchetes dizendo que Madonna é muito velha para o pop. Mais uma obra prima. Como já parece ser de praxe, Madonna chega para cantar as últimas músicas com o figurino mais, digamos assim, ‘exótico’. Dessa vez, ela vem como uma versão contemporânea de Joana D’Arc, quase inteiramente brilhante. A primeira música, I’m Addicted, foi a que mais me surpreendeu já que não era nem de longe uma das minhas preferidas do álbum; é difícil não se surpreender com a sua versão repaginada, que traz uma batida sem precedentes. Depois de mais uma performance na guitarra, dessa vez com a ajuda dos três cantores do Kalakan, vem a sempre adorada Like A Prayer. Ela chega com uma pegada clássica do CD, mas com uma batida levemente mais forte e traz consigo um coral em carne e osso. É o momento do show em que Madonna dá o microfone para algumas pessoas cantarem, pega na mão de outras, fala algumas coisinhas…

A música final é Celebration, o que deixou muitos fãs irados por não ser um grande hit. Dizem por aí que não se pode agradar gregos e troianos, não é? A batida lembra bastante o remix de Benny Benassi (o mesmo usado no video clipe oficial) mas há algo novo no fundo. A coreografia envolve todos os dançarinos e acontece em todas as partes do palco. Tudo termina no palco principal, sobre os incríveis cubos móveis de LED com passos de dança que fazem referência aos DJs. Madonna agradece já sumindo para baixo do palco e você fica ali extasiado com vontade de celebrar mais com a Rainha do Pop.

Passado o choque inicial conseguimos analisar pontos importantes e entender alguns detalhes. O que mais me deixou frustrado foi a falta de empolgação do público europeu em geral. Madonna tentava com todas as forças animar um Aviva Stadium lotado e era comum pedir para que cantássemos junto. Ela chegou a mandar um sincero ‘I can’t hear you!’ que, tenho certeza, eu nunca ouviria no Brasil. Pelo menos a chuva forte que caiu durante boa parte do show rendeu momentos engraçados, como quando ela comentou logo no começo que seu cabelo estava uma ‘merda’ ou quando ela perguntou com um tom ácido e irônico se achávamos que ela gostava de ficar molhada, logo depois de mostrar o bumbum ao fim de Human Nature.

Novo tour mundial de Madonna

Um ponto interessante de ter ficado no Golden Triangle foi captar o lado técnico do espetáculo. Madonna está sempre dando ordens que não são ouvidas pela parte do público que não está muito perto. Em um momento da metade do show ela mandou um quase irritado ‘where are the backing vocals?’ e na última música reclamou duas vezes do seu retorno, pedindo para aumentarem o volume de alguns instrumentos. E tenho que confessar que ri ao ouvi-la reclamar de um dos espelhos usados em Human Nature que estava com um pedaço estragado.

E tudo isso, fosse pulando, dançando ou andando sobre cordas (o famoso slackline), sem nem um pinguinho de playback. É possível perceber quando ela dá umas escorregadas no tom ou quando para e fala algo ao invés de cantar, o que no final só dá um toque orgânico ao espetáculo que visivelmente já foi exaustivamente ensaiado. E ela dança muito e incrivelmente bem ao mesmo tempo, o que é a causa (ou seria consequência?) do seu corpo perfeito. Não posso mentir e dizer que ela está com um rosto jovem, mas acredite, ela assume ser quem é e assume muito bem seus deliciosos 53 anos. Quem também merece os sinceros parabéns é o grupo de criação visual, o mesmo que trabalha com o Cirque du Soleil, que desenvolveu um trabalho primoroso.

MDNA Tour em Dublin logo chegará ao Brasil

Pretendo agora assistir mais um show em algum país mais quente da Europa, onde, espero eu, o povo seja mais caloroso e vibrante, pois realmente senti falta da energia que presenciei em São Paulo em 2008. Começo a entender quando falam que não há povo como brasileiro. Sobre Madonna, posso dizer que nunca esquecerei o momento em que ela ficou cara a cara comigo em Like A Prayer. Sobre a MDNA Tour eu digo: Madonna dá ao público exatamente o que ele quer sem deixar de ser criativa, inovadora, lançadora de tendências, orgânica mesmo que muito bem coreografada e autêntica acima de tudo. Nicki Minaj resume perfeitamente em rap o que todo mundo já sabe (ou deveria saber): ‘There’s only one Queen, and that’s Madonna.’ 

Imperdível, indescritível, indestrutível.




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26, Julho, 2012

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