
Seres humanos descartianos e seus relacionamentos
por Juliana Fernandez
Imagine não saber o que fazer diante de uma situação.
Provavelmente, não foi necessário imaginar. Nós temos essa incrível – porém não tão honorável – capacidade de complicar as coisas ao nosso redor, complicar pessoas, complicar nós mesmos. Desesperados ou apenas com alto grau de comodidade, a gente guarda algo para a gente, ou deixamos esse algo ir embora para não voltar por não saber o que fazer nos deixando numa solidão deveras angustiante. Na verdade, até podemos saber, mas já está tudo tão complicado que é melhor deixar para lá. Ou talvez não.
Essa falta de certeza, essa mania de complicação quase palpável me fez, por um segundo, pensar que deveríamos fundar um clube. Então lembrei da Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e mais uma vez reconheci que ‘aqueles’ Beatles eram realmente geniais. Eu faria parte desse clube e acho que os personagens de ‘Até a Eternidade’ seriam sócios fictícios dele.

Originalmente chamado ‘Les Petits Mouchoirs’, o terceiro longa-metragem de Guillaume Canet é feito de seres humanos e relacionamentos, de verdades ocultas e explicitas. Também é feito de praias, barcos, vinhos e doninhas enlouquecedoras. Entretanto, é principalmente composto por aquele muito pensar e pouco existir tão característico de nós, por hobby ou profissão.
Nos instantes iniciais do filme, acompanhamos Ludo (o ganhador do Oscar, Jean Dujardin), sob uma luz vermelha e saindo de um lugar que ficamos sabendo ser o banheiro feminino. Logo após deixar um inferninho, ele acaba por se acidentar. Não o tipo de acidente que custa um tornozelo imobilizado e um mês de muletas, e sim aquele que o deixa na UTI. Os amigos de Ludo se preocupam o suficiente para comparecerem ao hospital, entretanto, decidem ir para as férias pré-programadas no sul da França do mesmo jeito. Quer dizer, com um peso na consciência, mas nada que as praias de Cap Ferret não deem um jeito.
Durante as férias, conhecemos mais sobre os amigos de Ludo, e de desalmados eles passam a ter não apenas alma, mas também nossa simpatia. Eles não estão tão unidos quanto tentam demonstrar, já que permanecem envoltos em suas próprias complicações e solidões, que decidem (ou não) resolver cada um de sua própria maneira. Logo se esquece que aquele grupo de amigos largou um dos seus no hospital, o que não significa que são menosprezados– ou perdoados – seus defeitos. Todavia, ri quando eles riram e senti um aperto no coração quando choraram.
Há muito a ser dito sobre o filme, e a primeira delas, o que fica na cabeça assim que os créditos finais passam a surgir na tela, é sobre a atuação. Porque, de fato, o que faz ‘Até a Eternidade’ funcionar são seus atores. Muito do que há de melhor no cinema francês está presente no filme. Mesmo sendo personagens em sua maioria clichês, eles são reais de uma maneira quase palpável. Talvez uma parte se deva à familiaridade entre diretor e atores, já que alguns deles são casais fora das telas e outros já trabalharam juntos várias vezes.
Outro crédito do filme se deve a Canet que também é o roteirista. Se colocarmos seus três longas-metragens lado a lado, é notável sua melhora. Muitos dos personagens foram aprofundados de maneira impossível caso o filme fosse rodado alguns anos atrás, rendendo ao também ator o título de futuro ‘Woody Allen francês’ por expectadores mais exaltados e entusiastas.

Entretanto, não é só de ótimas atuações e praias que o filme é feito. Com um pouco mais de duas horas e meia, o filme não chega a te deixar sonolento, mas Canet ainda precisa se aprimorar mais como roteirista, já que, por mais que certas cenas fossem necessárias para o desenvolvimento do relacionamento entre personagem e expectador, são desnecessárias para a história. Cap Ferret é um lugar bonito de se ver – e imagino que também não seja ruim passar um tempinho por lá –, entretanto, não é preciso reafirmar tantas vezes que lá é legal e que se divertem horrores por aquelas bandas. As personagens por sua vez podem ser originais à primeira vista, mas já são clichês da trama cômica (ou comédia dramática, enfim, são muitos os nomes) que poderiam dar errado se não fossem seus intérpretes.
Ao nos identificarmos com uma das personagens (o que provavelmente irá acontecer) acaba sendo impossível não julgarmos as escolhas feitas por ela, e assim que terminado o filme, as feitas por nós mesmos.
re.la.cio.na.men.to sm. 1. Ato ou efeito de relacionar(-se). 2. Capacidades de relacionar-se, conviver ou comunicar-se com outros. 3. Bras. Ligação de amizade, afetiva, profissional, etc., condicionada por uma série de atitudes recíprocas; relação.
Os relacionamentos de ‘Até a Eternidade’ são reais e também vão contra tudo o que um relacionamento é no dicionário. Assim como as personagens, nos relacionamos e convivemos, acreditamos que nos comunicamos, mas o quanto do que transmitimos para o outro é verdade? Muitas vezes por mal, outras por não saber o que fazer, acabamos com mentiras convenientes.
‘Até a Eternidade’ é puramente fictício em sua maioria, mas o que resta pode ser um tapa na cara que, ainda belo, dói.