Trend Coffee - Moda Masculina

O corpo masculino no cinema
Como o cinema mundial lida com a (polêmica) nudez masculina ao longo das décadas
por Gil Marcel Cordeiro
No momento em que a censura norte-americana permitiu a nudez artística de Audrey Manson, numa cena do filme Inspiração, o nu masculino já estava em desvantagem. Por um fator histórico, o corpo da mulher sempre foi mais valorizado no cinema. Com a disseminação da produção do cinema mundial, órgãos ligados à censura de cada país acabaram definindo seus próprios limites. Ou seja, o que era permitido e, principalmente, o que era impróprio, foi sempre uma questão de ponto de vista. 
Enquanto Hollywood era sufocada pelos códigos de censura, o cinema Europeu escancarou a nudez de forma frontal e impactante para a época. Mas quando o assunto era uma bundinha masculina em cena, a história foi sempre diferente. Para se ter uma ideia, apenas em 1969, um filme comercial exibiria a nudez frontal do homem - era Mulheres Apaixonadas, dirigido por Ken Russel.

Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969), de Ken Russell
Aqui no Brasil, eles desfilaram sem roupa com mais naturalidade em cena – principalmente em tempos de Pornochanchada. Alguns dos títulos lançados nos idos dos anos 70 eram bem sugestivos: Gente que Transa, Nos Tempos da Vaselina, Como é Boa a Nossa Empregada, Histórias que Nossas Babás não Contavam, Cada um Dá o que Tem e Bem Dotado - O Homem de Itu. Claro, o interesse dos cineastas estava no corpo feminino, o homem sem roupa era apenas consequência. Até Marcio Garcia, na plenitude de seus 27 anos, se exibiu em O Guarani, uma pérola do nosso cinema.
Na última década, principalmente depois da retomada, os Reis da Safadeza desapareceram, engolidos pelo ‘filme-de-favela’. Ironicamente, num filme brasileiro de hoje, já não é tão fácil encontrar um peitinho ou uma bunda erguida à mostra, quem dirá um rapagão mais à vontade.

Diego Luna e Gael Garcia Bernal em E tua mãe também
Filme brasileiro, lançado em circuito comercial, não tem espaço para a nudez. No máximo uma insinuaçãozinha light de masturbação, protagonizada pela Ingrid Guimarães, ou uns palavrões ditos pela Deborah Secco.

Cena de Do começo ao fim
Com filme independente, a história é outra – os personagens masculinos de Cama de Gato, Do Começo ao Fim e Baixio das Bestas, por exemplo, estão despidos de qualquer vergonha.
Hoje, a ‘nudez’ no cinema estrangeiro é, muitas vezes, fator mais publicitário que artístico. Não é difícil encontrar filmes impregnados de insinuações de nudez masculina, já que alguns idealizadores conseguem enxergar o apelo que o tema tem sobre o público – principalmente as fatias mais populares.

Cenas de Anticristo e Shortbus
Algumas vezes, ela está lá pra fazer rir (American Pie, Ressaca do Amor, Passe Livre), às vezes, pra perturbar e chocar (Anticristo, Saló ou os 120 dias de Sodoma, Amargo Pesadelo). Outras, pela vontade de fazer arte com o sexo explícito (Calígula, 9 Canções, Shortbus). Às vezes funciona, às vezes não. Shame, lançado no início de 2012, é um perfeito contraponto. A nudez do personagem principal – um sujeito obsecado por sexo - está tão escancarada na tela, que, em determinado momento, tanto faz ver Michael Fassbender vestindo paletó de veludo, cachecol de cashmere e terno de lã inglesa, ou sem nenhum figurino por perto. 

Michael Fassbender em Shame
Enquanto isso, o erotismo e a explicitude acabaram sendo utilizados de maneira elegante – e moderada – por competentes realizadores na França, Argentina, México e Espanha. A nudez lírica de Vestido de Praia (Une robe d’été, no original) curta-metragem dirigido por François Ozon, os jogos de Os Sonhadores dirigido pelo conceituado Bernardo Bertolucci, a nudez bruta de Plata Quemada (protagonizado por Eduardo Noriega) a nudez sugerida de E Sua Mãe Também e, finalmente, a nudez de Antonio Banderas em A Lei do Desejo (de Pedro Almodóvar): todos ótimos termômetros de países e épocas diferentes.

Cena de Plata Quemada
De tudo isso, poderíamos dizer, simplesmente, que o mundo já está despido há muito tempo, que (quase) todos os tabus já foram quebrados, que o cinema mundial já superou o estigma da tarja preta e que as partes íntimas já fazem parte da cena. É mais fácil concluir que um diretor só não mostra aquilo que não quer, e ignora questões decisivas, como a pressão dos estúdios, o conservadorismo e impassibilidade do público, o medo da rejeição nos festivais e da distribuição para o mercado restrito do home vídeo e, principalmente, o fator da censura implacável, amarga e ranzinza, como uma daquelas tias velhas que todos nós temos. Isso sem falar no receio do ator em se expor por inteiro numa produção que, sabe Deus, como vai se sair na bilheteria alguns meses mais tarde.

Os Sonhadores
Dito isso, será que o homem nu deixou mesmo de ser uma imagem transgressora, que afrontava a sociedade, e hoje é apenas uma ilha exuberante e vigorosa, prestes a ser (re)descoberta?
Na dúvida, navegadores e descobridores: é hora de reunir a esquadra. Avante! - Moda Masculina

O corpo masculino no cinema

Como o cinema mundial lida com a (polêmica) nudez masculina ao longo das décadas

por Gil Marcel Cordeiro

No momento em que a censura norte-americana permitiu a nudez artística de Audrey Manson, numa cena do filme Inspiração, o nu masculino já estava em desvantagem. Por um fator histórico, o corpo da mulher sempre foi mais valorizado no cinema. Com a disseminação da produção do cinema mundial, órgãos ligados à censura de cada país acabaram definindo seus próprios limites. Ou seja, o que era permitido e, principalmente, o que era impróprio, foi sempre uma questão de ponto de vista. 

Enquanto Hollywood era sufocada pelos códigos de censura, o cinema Europeu escancarou a nudez de forma frontal e impactante para a época. Mas quando o assunto era uma bundinha masculina em cena, a história foi sempre diferente. Para se ter uma ideia, apenas em 1969, um filme comercial exibiria a nudez frontal do homem - era Mulheres Apaixonadas, dirigido por Ken Russel.

Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969), de Ken Russell

Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969), de Ken Russell

Aqui no Brasil, eles desfilaram sem roupa com mais naturalidade em cena – principalmente em tempos de Pornochanchada. Alguns dos títulos lançados nos idos dos anos 70 eram bem sugestivos: Gente que Transa, Nos Tempos da Vaselina, Como é Boa a Nossa Empregada, Histórias que Nossas Babás não Contavam, Cada um Dá o que Tem e Bem Dotado - O Homem de Itu. Claro, o interesse dos cineastas estava no corpo feminino, o homem sem roupa era apenas consequência. Até Marcio Garcia, na plenitude de seus 27 anos, se exibiu em O Guarani, uma pérola do nosso cinema.

Na última década, principalmente depois da retomada, os Reis da Safadeza desapareceram, engolidos pelo ‘filme-de-favela’. Ironicamente, num filme brasileiro de hoje, já não é tão fácil encontrar um peitinho ou uma bunda erguida à mostra, quem dirá um rapagão mais à vontade.

E tua mãe também

Diego Luna e Gael Garcia Bernal em E tua mãe também

Filme brasileiro, lançado em circuito comercial, não tem espaço para a nudez. No máximo uma insinuaçãozinha light de masturbação, protagonizada pela Ingrid Guimarães, ou uns palavrões ditos pela Deborah Secco.

Do começo ao fim

Cena de Do começo ao fim

Com filme independente, a história é outra – os personagens masculinos de Cama de Gato, Do Começo ao Fim e Baixio das Bestas, por exemplo, estão despidos de qualquer vergonha.

Hoje, a ‘nudez’ no cinema estrangeiro é, muitas vezes, fator mais publicitário que artístico. Não é difícil encontrar filmes impregnados de insinuações de nudez masculina, já que alguns idealizadores conseguem enxergar o apelo que o tema tem sobre o público – principalmente as fatias mais populares.

Cena de AnticristoCena de Shortbus

Cenas de Anticristo e Shortbus

Algumas vezes, ela está lá pra fazer rir (American Pie, Ressaca do Amor, Passe Livre), às vezes, pra perturbar e chocar (Anticristo, Saló ou os 120 dias de Sodoma, Amargo Pesadelo). Outras, pela vontade de fazer arte com o sexo explícito (Calígula, 9 Canções, Shortbus). Às vezes funciona, às vezes não. Shame, lançado no início de 2012, é um perfeito contraponto. A nudez do personagem principal – um sujeito obsecado por sexo - está tão escancarada na tela, que, em determinado momento, tanto faz ver Michael Fassbender vestindo paletó de veludo, cachecol de cashmere e terno de lã inglesa, ou sem nenhum figurino por perto. 

Michael Fassbender em Shame

Michael Fassbender em Shame

Enquanto isso, o erotismo e a explicitude acabaram sendo utilizados de maneira elegante – e moderada – por competentes realizadores na França, Argentina, México e Espanha. A nudez lírica de Vestido de Praia (Une robe d’été, no original) curta-metragem dirigido por François Ozon, os jogos de Os Sonhadores dirigido pelo conceituado Bernardo Bertolucci, a nudez bruta de Plata Quemada (protagonizado por Eduardo Noriega) a nudez sugerida de E Sua Mãe Também e, finalmente, a nudez de Antonio Banderas em A Lei do Desejo (de Pedro Almodóvar): todos ótimos termômetros de países e épocas diferentes.

Cena beijo de PLat Quemada

Cena de Plata Quemada

De tudo isso, poderíamos dizer, simplesmente, que o mundo já está despido há muito tempo, que (quase) todos os tabus já foram quebrados, que o cinema mundial já superou o estigma da tarja preta e que as partes íntimas já fazem parte da cena. É mais fácil concluir que um diretor só não mostra aquilo que não quer, e ignora questões decisivas, como a pressão dos estúdios, o conservadorismo e impassibilidade do público, o medo da rejeição nos festivais e da distribuição para o mercado restrito do home vídeo e, principalmente, o fator da censura implacável, amarga e ranzinza, como uma daquelas tias velhas que todos nós temos. Isso sem falar no receio do ator em se expor por inteiro numa produção que, sabe Deus, como vai se sair na bilheteria alguns meses mais tarde.

O erotismo de The Dreamers (os sonhadores)

Os Sonhadores

Dito isso, será que o homem nu deixou mesmo de ser uma imagem transgressora, que afrontava a sociedade, e hoje é apenas uma ilha exuberante e vigorosa, prestes a ser (re)descoberta?

Na dúvida, navegadores e descobridores: é hora de reunir a esquadra. Avante!




8

Fotos: Divulgação

blog comments powered by Disqus

26, Novembro, 2012 l Direitos reservados l 8 likes

Mocca Acessórios masculinos







Faça parte do nosso grupo de leitores











Revista online de moda masculina We Hate Mag