Quem decide o certo e o errado é você
Por Kelson Santos
Antes de começar uma relação a gente sempre se pergunta se “essa é a pessoa certa”. A confiança vai sendo construída e depois de alguns gestos conseguimos acreditar que aquela pessoa é digna de habitar mais espaço na nossa vida e em nossos corações. Brincar na beira da piscina já não tem graça e vamos com toda vontade lá pro fundo, mergulhando sem arrependimentos para aquilo que chamamos de um ‘futuro juntos’.

Mas de verdade… você nunca fica sabendo se é o cara certo. A cartomante também não respondeu, a cigana puxou o santo errado e você desiste de querer adivinhar o futuro. Aceita a condição de que jamais saberá se é ou não o cara certo.
Outro belo dia tive uma conversa com a pessoa mais improvável sobre relacionamentos: minha mãe. Perguntei para ela como ela conseguia, depois de mais de trinta anos, ainda dormir, acordar, ligar quatro vezes ao dia, trocar mensagens e conversar com meu pai. Como que desde o dia que começaram a namorar ainda estão juntos. A resposta foi bem curta:
“Eu nunca soube. A gente nunca sabe.”
Se a minha mãe não soube me responder, não há Google que saiba. O cara certo não está ali na esquina te dando alô. Ou está e você nem se mexeu para ver. E depois dessa confissão que ouvi, eu pensei que não existissem caras certos, não do jeito que achamos que exista.

Qualquer pessoa que te faça feliz é o cara certo. Pode ser que briguem e se separem, mas ele foi o cara certo por alguns dias, ou até mesmo instantes. O cara certo não é uma construção contínua temporalmente, mas a existência momentânea de alguém que nós esperamos. E como sempre tentamos ser controladores para que nada de bom acabe, ficamos na expectativa de que o cara certo vai aparecer e mudar completamente nossas vidas.

Há casos como contos de fada, que de fato um príncipe aparece e muda tudo. Mas numa metrópole do século XXI eu acho que isso é cada vez mais difícil. Por isso não me pergunto mais se a pessoa será a pessoa certa, mas sim se ela pode ser.
+ Estamos preparados para sermos felizes com a pessoa certa?
Enormes expectativas repousam sobre os ombros de quem estamos juntos e querer que essa pessoa realize e aceite tudo é loucura. Pense se você também é capaz de fazer tudo que espera de si mesmo. Agora imagina se a outra pessoa é capaz de fazer o que você espera dela. Se não é através de muita conversa e paciência, o cara certo nunca ‘acontece’. Porque a palavra certa é acontecer - localizada no quando - e não aparecer - localizada na pessoa.

As chances do cara certo acontecer são dadas por vocês. E se, mutuamente, conseguirem ser os caras certos um para o outro você passará menos tempo pensando em quem surgirá e mais tempo ocupando-se de quem já está com você.
E viveram felizes para sempre… ou não
por Kelson Santos
O American Way of Life já está apresentando seus efeitos colaterais. A felicidade das pessoas tornou-se uma meta e não mais um meio de vida. Adquirir, comprar, consumir e ter até que finalmente se atinja um grau de conquistas que seja a sonhada felicidade.

Hoje sinto as pessoas seguindo o que Josh Homme canta em “Go with the flow”. Crescemos, estudamos, nos formamos, trabalhamos, compramos um carro, uma casa, casamos, temos filhos, netos, aposentadoria. Um molde que seguimos e nos esforçamos para realizar. É pensar dentro da caixinha, e cada um que não segue isso é dado como o comunista-burguês.
Mas o que isso tem a ver com relacionamentos? Tudo. Imagine encontrar-se em um relacionamento seguro, normal. Você nem gosta tanto da pessoa, ou sente que a pessoa não gosta tanto de você, mas se dão bem juntos, conquistam coisas juntos. É um relacionamento medíocre - no sentido de ser pertencente à faixa do senso comum, não no sentido pejorativo do termo. A inércia, a pressão familiar (lembra da tia perguntando quando vocês vão casar?) e a facilidade de construir seu futuro junto dessa pessoa fazem com que deem o próximo passo.

Moram juntos, tornam-se comprometidos e alguns até casam. Acontece que agora sua felicidade, por mais medíocre que seja, está apoiada num relacionamento que aconteceu por causa dos moldes, por causa do que foi pré-estabelecido por outros e não por vocês. Duas pessoas num relacionamento que não as pertence completamente.
O resultado disso é você acabar, depois de alguns meses, odiando aquela pessoa que está do seu lado, já que ela está ali pelas coisas que vocês têm juntos e não sinceramente pelo motivo de se amarem. É você não encontrar mais humor ou felicidade dentro de si para sequer responder um “bom dia”. É você não sentir mais apelo sexual ou carinho por alguém que prometeu viver feliz até o dia de sua morte. Em alguns casos felizes isso termina em divórcio, outros em traição.

Sim, acredito que o caso mais feliz seja o divórcio. Antes o divórcio à violência doméstica ou ao abuso, antes o divórcio às pessoas viverem uma vida infeliz pensando sobre o que os outros infelizes dirão dela. Os moldes serviram há muito tempo atrás, quando a velocidade da vida era outra e as pessoas também. E o que fazer quando sua crônica de amor feliz não é feliz? Como se reestruturar depois de um fato tão triste?
Simplesmente saia dos moldes que você mesmo, assim como várias pessoas, se colocou. Uma história de amor não significa a única história de amor. O necessário - e até divertido - é se reinventar e fazer tudo aquilo que precisa para se sentir bem e finalmente feliz. Até que você reencontre alguém e saiba ter um relacionamento construído por vocês, o final feliz que na verdade é uma ligação no meio do dia pra saber como você está e se melhorou da gripe, são aqueles pequenos atos que revelam amor e não a assinatura de um documento lavrado no cartório.

O final feliz não é um final, mas é a dedicação diária, saber que existem várias formas de se conquistar a mesma pessoa e saber que todos os dias são oportunidades de realizar o incrível ato de amar alguém, cada milímetro, defeito e qualidade. O importante mesmo é amar por gostar, por querer e por sentir-se especial junto a quem realmente vai tirar sua vida dos moldes e te jogar lá no alto.
A paixão nos deixa irracionais?
por Kelson Santos
Sempre achei engraçado como ficamos quando estamos apaixonados. Primeiro você nega, finge que nada aconteceu. Depois começa a ver o quanto o fio de cabelo fora do lugar, o nariz torto ou a cor dos olhos daquela pessoa são tão diferentes, como se não houvesse mais ninguém no mundo parecido. Se sucedem algumas conversas e pronto!
Somos os seres que estão no ponto final da evolução, de toda teoria Darwiniana acabamos por ser os racionais. Capazes de construirmos arranha-céus, criar smartphones e inúmeros gadgets que eu jamais serei capaz de entender como funcionam. Todavia, quando chegamos num assunto tão aparentemente simples como paquerar alguém… quase todos cometemos gafes ou trapalhadas que no começo vão causar uma vergonha tremenda e ao final vira aquela história que rimos com os amigos.

Por algum motivo, o ser inteligentíssimo capaz de passar no vestibular, se formar, escrever uma monografia e ser o CEO de uma multinacional ainda se atrapalha quando fica perto de alguém que se afeiçoa. Parecemos bobos, vulneráveis. E se nada dá certo, melancólicos.
Há um arranha-céu em Buenos Aires dono de uma história incrível, que fiquei conhecendo em um dos meus filmes favoritos, Medianeras. Corina Kavanagh se apaixona por um jovem da família Anchorena, família aristocrata e de grande renome na cidade. A família de Corina não tem origem nobre e o relacionamento dos dois é desaprovado e eles se separam. A família Anchorena tinha como apreço a igreja do Santíssimo Sacramento, que era uma espécie de mausoléu familiar e podiam vê-la de seu palácio, do outro lado da Plaza San Martin. Corina vende algumas fazendas e manda construir um edifício. Nada demais, não fosse o prédio ficar na frente da igreja dos Anchorena, tapando a visão que tinham antes. E para chegar até a igreja ainda precisavam passar por uma travessa. O nome da travessa é Corina Kavanagh.

Isso me faz pensar que o caminho pode ser o contrário. Que na verdade não somos seres superiores por causa da evolução em sentido estrito. Nós temos a capacidade de criar, mas não fosse a paixão em querer, o que aconteceria?
A motivação se esconde atrás da paixão, do desejo e do amor, não dos neurônios e sinapses nervosas que ganhamos com o tempo. A prova disso é que cada vez mais as pessoas aprenderam a trabalhar com o que gostam, com o que se identificam e por isso o trabalho, mesmo se não o motive financeiramente, fica prazeroso.
Claro que para Corina foi mais uma motivação de vingança do que de amor, não foi um Taj Mahal, mas foi a prova de que mesmo atrapalhada pelas emoções ela pode construir grandes coisas. A moral da história é que ficar apaixonado não nos torna vulneráveis ou bobos, apenas nos torna humanos.
O quanto vale seu relacionamento?
por Kelson Santos
Corretoras de seguro devem ser um dos negócios mais lucrativos. Pense em quantas pessoas têm medo de seus carros serem roubados ou de algum acidente acontecer. Somos naturalmente inseguros, talvez seja um aspecto da natureza humana que surgiu conforme a evolução da espécie, para ficarmos atentos com os padrões e sabermos que nem tudo conquistado ainda nos pertence - embora devesse.
E agora pense quantas pessoas se inscreveriam num seguro para não perder o namorado. Esse seria um negócio mais lucrativo que o Google. O ciúmes, a insegurança e o medo são os motivos que ameaçam o relacionamento por dentro, enquanto as biscates e as brigas ameaçam de fora. São aspectos inerentes a um relacionamento, mas que dependendo do quanto são presentes fazem o valor do seguro ser maior ou menor.

Se você mora num bairro tranquilo, se seu carro não é visado e se você dirige com habilidade digna de GTA, o valor do seguro para o seu carro vai ser menor. Mas se você sabe que por onde vai é um local perigoso, ou seu carro é um camaro amarelo e você dirige mal, o valor vai ser maior. E os aspectos que medem o valor do seu relacionamento são as coisas que vocês constroem juntos e separados. A confiança é o bairro que você estaciona seu relacionamento, o perigo de seu namorado ser roubado é o quanto investe em gestos que vão fazer a diferença e a maneira como dirige o relacionamento é a paciência em lidar com assuntos delicados. E o valor que você paga no seguro é o quanto por mês é capaz de dar de si para não ser roubado, bater ou ter que ir pro mecânico devido a acidentes. O valor do relacionamento é o quanto de você vai ter que ser gasto para fazer digno o investimento. É o seu tempo, suas mensagens e sua determinação parcelados em apólices que vão ser assinadas pelos dois.

A diferença do seguro para carros e para relacionamentos é que um existe e o outro não - por enquanto, que eu saiba, exceto pelo casamento. Isso porque os valores do relacionamento são muito mais subjetivos do que os do carro. E enquanto ninguém inventa esse seguro cabe a você dar o valor e construir uma boa parcela, que parte dos dois lados e resulta em comemorações de meses ou anos de namoro, presentes divertidos, piadas internas, abraços reconfortantes, bom sexo e finalmente amor.

Esses dias no mínimo uns sete casais que eu conheço terminaram. Alguns voltaram em menos de uma semana, outros talvez nem se vejam mais. Às vezes é só uma crise, que passa e que vale mais a pena continuar e investir para superarem. O medo de perder aquele alguém especial é grande, e sempre será. Mas não pode ser maior que o amor que se sente pela pessoa. Ou você tá pagando por um seguro que no final vai te dar calote. É a diferença de ter um relacionamento que você faz tudo por prazer e não se importa com o que faz e ter um relacionamento que você acredita custar caro demais.
Sobre como nada muda na noite
por Kelson Santos
Recentemente li a entrevista do André Hidalgo para a Veja e fiquei intrigado com o fato de ele ter dito que a “noite gay está chata e repetitiva” . Depois li a crítica do Boatismo que, em certas doses, concordo. E um enorme ponto de interrogação se fez na minha cabeça. Deixando de lado as críticas sobre o nightclub, fiquei pensando se o problema realmente está na noite gay ou nos gays de forma geral.

Isso mesmo, nas pessoas, não só os lugares que elas frequentam. É claro que quando um público cativo bate cartão num clube noturno pode se tornar repetitivo e chato, e que sempre as mesmas músicas e festas contribuem para isso. Mas quando eu me vejo conversando com alguém, também vítima daquela cilada em forma de balada, é tudo a mesma coisa. Onde estão aquelas conversas longas sobre filmes, música, livros ou passeios? Onde estão as pessoas com algum conteúdo mais relevante do que falar sobre como a última festa foi ‘maneira demais brow’?
Saio desde os 16 anos, pelo menos quatro vezes por mês, o que dá no mínimo 300 baladas na vida. E são poucas as que me marcaram a memória. Nenhuma dessas foi porque conheci alguém especial. A maioria foi porque algum amigo fez uma bobagem histórica ou alguma coisa do tipo. Faz tempo que alguma coisa realmente para e me impressiona nessas baladas. Quando a música é boa o lugar é ruim. Quando o lugar e a música são boas, é caro demais. Quando o lugar, a música e o preço são bons… não sei, nunca fui em algo assim. Faz tempo que o conteúdo de alguém realmente me faz achar que as pessoas não são chatas ou repetitivas.

A primeira coisa é observar o lifestyle: o ciclo trabalho-academia-balada. E quando bate umas 3h da manhã, a música anima e o povo já mais alegre torna a pista no National Geographic. Os pegadores cercam suas presas como urubus, ou leões correndo atrás das zebras. Vão para um canto do abate e depois, quando não parece ninguém mais interessante, vão embora finalizar o abate. Facebooks trocados, algumas mensagens para não bater muita culpa depois do one night stand e pronto. O ciclo da vida noturna está concluído.
E isso, depois de algum tempo se torna repetitivo. Por isso hoje, aos 22 anos isso não atrai mais. Isso não basta mais. Quando mais jovem o conteúdo pouco interessa e você está mais para um caldeirão fervendo de hormônios e ereções. Depois dessa ebulição hormonal a cabeça começa a pedir mais. A gente já não bebe a mesma vodka barata porque tem medo da ressaca virar gripe, menos ainda se interessa por alguém a ponto de trocar o contato.
Troca os esquentas por open house, as noites dançantes por longas conversas em bares inusitados e uma paquera já dá tanto trabalho que a preguiça de ir até a garagem pegar o carro vence, te dando a chance de ficar em casa vendo filmes.

No fim, o que falta de verdade é aquela faísca. Aquela sensação de ter encontrado alguém que não se perde o mistério no primeiro, segundo ou terceiro encontro. Aquela sensação de que quando as peles se tocam há eletricidade. E dificilmente a modo superficial como conhecemos alguém numa balada remete a isso.
Por um mundo com rolês diferentes, baladas inovadoras, festivais de música com lama e Black Keys e rapazes mais altos, tatuados e que discutam séries, filmes, música e peças teatrais clássicas com a mesma desenvoltura de seus abdomens. Mas além disso: mais amor, por favor.
Manual de sobrevivência para não perder a auto-estima
por Kelson Santos
Eu devia começar a levar um gravador para balada, para bar e para vários lugares que encontro meus amigos. Dessa vez a conversa foi bastante esclarecedora, daquelas que merecia ser cem por cento reproduzida aqui. Estávamos falando sobre como ‘desencanar’. Para quem não sabe desencanar é ficar bem consigo mesmo sem se importar com as atitudes negativas que as outras pessoas possam ter, ou não ter. Se você abrir o dicionário e procurar por desencanar vai achar uma foto do grumpy cat e o conceito descrito acima.

Eu sempre tive certa dificuldade para desencanar. Primeiro porque depois que a gente passa dos 20 anos, o critério aparece e fica difícil achar alguém interessante que corresponda dentro de expectativas cabíveis. Quando você acha isso se torna uma agulha no palheiro, e desencanar dessa agulha é difícil.
Perguntei para esse amigo como ele desencana. Como ele faz para não ficar se achando uma pessoa menor do que é por causa de um cara que não dá assistência ou pela falta de atenção dele. A resposta, segue abaixo:
‘Primeiro que você tem que se dar o valor. Não tem que se adaptar a ninguém! Então estando com sua cabeça tranqüila, que você é desse jeito e quem gostar gosta, e que quem não gostar, foda-se! Daí, se o cara não dá atenção, pelo menos comigo, eu penso nos defeitos dele (porque sempre arrumo vários) e concluo que na verdade quem saiu perdendo foi ele! Em alguns casos, depois que eu desisto, eles voltam atrás… Mas daí eu não quero mais e me sinto muito bem. Enquanto isso, já fui pro próximo.’

O truque dos defeitos é bastante funcional. Juro. Transforme a pessoa numa caricatura, dando orelhas desproporcionais, boca pequena, dentes feios, aumente em 300% os defeitos e nisso sua atração por ela acaba indo embora. Pode parecer superficial, e você pode até dizer que não se sente atraído só pelo físico da pessoa, mas o truque é para diminuir sua atração. E querendo ou não, somos fisicamente atraídos por algum aspecto.
A regra universal é: na hora que você desencanar, ele vai vir atrás. Não há um caso sequer que seja diferente. E depois que você desencanou, parece que uma força Jedi incrível toma conta do seu ser e faz com que se sinta bem novamente, com alguém saindo ou não com você.
O importante é saber que você tem valor independente de estar ou não com alguém. Às vezes não é questão de um defeito seu ou atitude sua definir se alguém vai ficar ou não com você - na maioria das vezes não é! As pessoas podem estar num tempo diferente, num outro tipo de humor. Seria pretensioso dizer que todo relacionamento vai dar certo sem nenhum arranjo, então não vale se desgastar por causa disso.

Uma coisa super sedutora e que vai deixar você como alguém muito mais desencanado - por mais que não seja - é ser seguro de si. É gostar de si mesmo, ainda que a balança te ofenda, o bronze não esteja em dia ou a nota da prova tenha sido abaixo do esperado. Afinal é quem você é. Se você não gosta de si mesmo, como os outros poderiam gostar? Das minhas aulas de marketing eu lembro: ’ Você não anuncia bem um produto que você mesmo não compre’.